há alturas na vida em que não necessito que seja mais do que um espólio de fragmentos seleccionados pelo esquecimento. À saída da infância perdi para a lareira de uma guerra de outros toda a biblioteca que o meu pai construiu, e que consigo transportou através dos continentes por onde a vida o fez andar, ao longo de mais de vinte anos. Desses livros por onde aprendi realmente a ler, tantas vezes às escondidas, guardei uma memória agarrada à das terras onde os fui conhecendo e, fosse por capricho ou, mais provavelmente, por temor de desilusão, fiz questão de não os adquirir nem os reler na idade adulta.
Exactamente no mesmo mês de Outono mas trinta e um anos depois, foi-me oferecida a biblioteca pessoal de uma mulher nascida pela mesma época que o meu pai. A oferta trazia, ainda sem me terem sido dados a ver os livros, uma dedicatória e uma responsabilidade: "Tive sempre tanta pena que não a tivesses chegado a conhecer que a única forma que encontro de resolver isso, agora que ela morreu, é dar-te à escolha, antes de mais ninguém, os livros. Acho que ela, lá onde estiver, vai gostar que fiques com eles porque vocês as duas são as pessoas que conheço que mais vi gostarem e respeitarem os livros."
A maior parte dos livros eram raros, alguns verdadeiras preciosidades dos anos 40 e 50; os autores criteriosamente seleccionados entre o melhor que a literatura europeia, e nomeadamente a de língua alemã e inglesa, menos um pouco a francesa, terá dado ao mundo nos séculos XIX e XX. Ensaio e crítica literária, muita filosofia e poesia, romance, narrativas diversas, foi o que encontrei em centenas (milhares?) de volumes cuidadosamente organizados ao longo de metros e metros cúbicos de estantes. Outros livros, bem menos frequentes, tão comuns como os que se podem comprar hoje em dia num qualquer hipermercado.
Fiz uma escolha ditada bem mais pelo coração que pela razão sabendo, à partida, que os que deixasse seriam entregues ao cuidado de uma instituição de ensino superior. Alguns terão de ser recuperados por profissionais, os ácidos do papel antigo são algozes implacáveis, as colas e as linhas com que eram montados em nada se comparam à qualidade dos materiais actuais. Quando no início da semana um dos meus filhos comentou só ter visto, em casa de alguém da sua geração, uma biblioteca com o tipo de obras que se habituou a ver e ler desde a infância na casa em que vive, tive curiosidade em saber a quem se referia. Não poderia ter-me espantado mais: era uma biblioteca acabada de herdar por uma das suas melhores amigas e construída por uma mulher da minha idade, e por conseguinte da idade da sua própria mãe, recentemente falecida num brutal acaso.
A biblioteca a que pertencia o conjunto de livros que escolhi, como penso o serão sempre as das pessoas que amam os livros, era bem mais do que uma colecção de livros manuseados e anotados, era parte da alma, da carreira e da vida da mulher que a construiu e com quem não cheguei a cruzar-me em vida. Não sei o que fará a jovem com a biblioteca herdada nem até que ponto, na idade que tem, será já capaz de perceber que pode conhecer uma outra dentro da mulher que a escolheu. Quanto a mim sei que aos poucos, à medida do tempo em que aqueles livros vão fazendo parte dos meus dias e da minha vida num convívio, imagino que nem sempre pacífico, com os meus, vou aprendendo a respeitar, cada vez mais, a intimidade de uma mulher que a vida me deu a conhecer, através de memórias fragmentárias de anotações a lápis e tipos antigos, por linhas tortas em livros velhos.