Não terá sido por acaso que Hannah Arendt considerou sua favorita, e "uma das maiores histórias de amor de toda a literatura", esta versão de Broch de um Don Juan no feminino. É a imagem do ressentimento vazio e da prepotência cega, a que são alheios o afecto e a compaixão, escrava dos desejos e da violência até à crueldade a quem a ilusão de juiz plenipotenciário sobre a vida e a ética dos outros (que não da sua) torna imune à bondade e que nada nem ninguém parece saber parar na descida aos infernos para onde se arrasta levando consigo quem lhe seja próximo, esta Zerlina que conta a A. a história adivinhada de uma viuvez em vida. Uma história de vida alicerçada na mesquinhez contra a, talvez "vazia" e tonta mas seguramente amada, "rainha das fadas" dos "chorrilhos sentimentais" e em cujo final, sobre os cacos de todas as vidas que destruiu (incluindo a sua), se refugia na justificação-expiação, tornada então patética, de um amor. Quando, ao terminar a história, usa a chave "eu amei-o a minha vida inteira, com toda a minha alma", escuda-se de algum modo numa variante 'sui generis' de uma ética 'à la Lévinas' e torna-se, com este "chorrilho sentimental" em nada diferente dos que critica, apenas o verso inalienável, porque inexistente sem ele, do reverso do todo que é o ser humano.
Mas se Heiddegger (o amante vampírico a quem Arendt terá amado por "toda a vida" e possivelmente com "toda a alma") reitera, em "O Ser e o Tempo", a imposição inaugural da filosofia que Platão escrevera n'"O Sofista" - "É preciso parar de contar intrigas" - se calhar torna-se mais fácil perceber o apego de Arendt a esta pequena (e belíssima, sem dúvida alguma) 'história' de Broch integrada em "Os inocentes". Ah, o eterno feminino? Volta Teresa Guilherme, estás perdoada! Porque, pedindo emprestado um pedacinho de uma ideia a Lévinas, a intriga é o pecado original decorrente da existência do Outro.