julho 06, 2006

Das (i)mutabilidades

Há no Porto, na zona da Ribeira, um baixo relevo votivo enegrecido pelo arder contínuo das velas acesas pelos crentes, em memória das vítimas do desastre da Ponte das Barcas, ocorrido durante as invasões napoleónicas. Da memória familiar que dele trago - pelos da minha família que lá terão morrido - e das vezes em que posteriormente por lá passei enquanto residi naquela cidade - a deixar memórias agarradas a pedidos egoístas ou a rezar por quem perdi naquele rio - retive um inexplicável silêncio paredes meias com o bulício do mercado de levante próximo ou do tráfego na ponte. Hoje é esse o silêncio que Lisboa me oferece: o metro quase vazio, as ruas tranquilas, o alheamento ensonado dos peões, as vozes baixas das pessoas no café, tudo a lembrar a insonora resignação da guitarra portuguesa no fado. E concluo: apenas os franceses mudaram, não as 'alminhas da ponte'.

Publicado por m. em julho 6, 2006 01:20 PM
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