julho 03, 2006

Das vozes dos animais

Era um cão que tinha um marinheiro. O cão perguntou à esposa, que se pode fazer de um marinheiro? põe-se de guarda ao jardim, respondeu ela. — Não se deve deixar um marinheiro à solta no jardim, que fica perto do mar. Um marinheiro é uma criatura derivada por sufixação, e pode recear-se o poder do elemento de base: o radical mar. Em vez de guardar o jardim, ele acabaria por fugir para o mar. — Deixá-lo fugir, disse a esposa do cão. Mas ele não estava de acordo. Que um facto deveria ser esse mesmo facto até ao limite do possível: quem possui um marinheiro para guardar o jardim deve procurar mantê-lo a todo o custo, assim como o cão, ou o casal de cães, que não tiver um marinheiro deve não tê-lo até a isso ser absolutamente forçado. — Nesse caso, só nos resta ir para uma terra do Interior, longe do mar, disse a cadela. E então foram para o Interior, levando pela trela o marinheiro açaimado.

Helder, H. (2001). "Os Passos em Volta". Lisboa: Assírio & Alvim. (p. 125)

Publicado por m. em julho 3, 2006 12:15 AM
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