[ou coisa que o valha antes de me dedicar ao efeito de especiarias sobre coiratos assados em rulótes à beira do estádio]
A Bíblia é livro que, de forma alguma, me é familiar e, por muitas razões, chega mesmo a ser-me estranho. Ao tornar-me proprietária de um pequeno (e básico e palavroso e até abrejeiradote) mas bem curioso livro, da autoria de uma irreverente jornalista do France-Culture, estava bem longe de imaginar todo o potencial de divertimento inteligente que as histórias das mulheres da Bíblia podem proporcionar a quem ouse deixar a imaginação à solta e não pense com as vísceras (e desde que não seja misógino, caso em que há-de dizer-lhe tanto quanto uma posta mirandesa a um vegan). Nem que seja apenas para aprender com histórias de prostitutas e sedutoras como Raab que a mulher é "o fio de seda vermelha que liga os frágeis homens aos deuses" (Livro de Josué, 1 - 6) ou como Dalila que "partilhar um segredo de outrém é também partilhar a sua morte" (Livro dos Juízes, 13 - 16). Ou para descobrir, nas lições das temíveis e rebeldes, que com Jezebel (I Reis, 16 - 21; II Reis, 9) se fica a compreender por que "gloria sic transit" tem tudo a ver com um detergente eficaz contra nódoas de insolência ou com Atalia (II Reis, 11; II Crónicas, 22 - 23) que "o corpo das mulheres [se] entrega ao amor como a um deus" em vez de sublimar a dimensão lúdica da vida infantil que é o sexo no adulto às voltas com o joystick de uma playstation. Ou com o telecomando de um televisor.