O gosto pela comemoração de efemérides é um legado que os portugueses deixarão à Humanidade como prova de inexcedível capacidade de preocupação com o irrelevante: enquanto se ocupa o tempo a comemorar e se dizem meia dúzia de inconsequências voláteis e fúteis sempre se evita pensar. Ora, tem feito parte da história do melhor da nossa formação cívica e académica reconhecer a tarefa de pensar como trabalhosa e inútil, irrefutavelmente validada que tem sido esta conjectura pelo desenvolvimento dos cavalos de borracha e dos elefantes de papel a que a Srª Ministra da Educação e respectiva equipa têm dado a melhor atenção e discernimento de que, acredito piamente e até me benzo porque isto só pode ser um acto (não auto, acto e não é 'gaffe', asseguro) de fé, serão capazes.
Perante uma constatação deste teor em relação aos frutos do sistema educativo nacional, não só não me chocou a proposta de criação de um "Dia do Cão" como até a considerei digna do maior carinho e extensível, naturalmente por maioria de razão e imperativo ético-ecológico, ao asno lusitano (e, porque não desejo mal-entendidos, nem me vou deter em pormenores sobre se a raça actual é a que evoluiu da subespécie 'Equus asinus europeus', da 'Equus asinus taeniopus' ou da 'Equus asinus africanus').
Mas mesmo amante de efemérides de que não posso deixar de me prezar em nacional orgulho - e mais ainda das mundiais já que do futebol não consigo ir mais longe que saber o que a moça brasileira do cabeleireiro me conta da Merche Romero - não consegui encarar de frente esta comunicação que me chegou via fonte tão útil e indispensável quanto credível e insuspeita (como bem o sabem os verdadeiros profissionais inscritos nas várias) que é a Ordem: Comemoração do Dia Mundial da Desertificação - 17 de Junho. Desde quando, e por que carga-d'água, se há-de comemorar agora (comemorar, sim, é o que se diz no folheto, a infelizmência não é minha) o facto de em muito poucos anos termos o deserto como morada e não se espera até lá para o podermos fazer numa tenda, sentadinhos em coxins aveludados a saborear um chá de menta e tudo?