junho 03, 2006

Dias de costura

Aquela argelina do Corot deixou-se olhar bem durante os 5 minutos canónicos, ficou então demonstrado que era uma mulher que valia a pena, mesmo sem ter um deserto por detrás a dar-lhe profundidade, e mesmo não sendo uma raridade; a prova colocada aos copos baços do Morandi envergonhado era mais difícil e ele acabou – com tristeza minha - por não aguentar tanta cor que pontilhava nas redondezas, como nem sequer conseguiu disfarçar uma incerteza de contornos menos felizes. Fizeste-me ver que tinha passado ao lado do Fragonard porque não era uma bela rapariga que lá estava naquela sua típica pose serpenteada, e eu, rindo do insólito apanhado, viciado em olhar de saltimbanco, esqueci-me de te provocar ao de leve dizendo que não gostas das paisagens do Ruysdael porque tens medo que o bucolismo te arredonde o gume do bisturi; também será por isso que passas pelo Greuze com o desdém quase olímpico de quem traz pinacotecas na memória, com a mesma naturalidade de quem faz receitas de cheesecake, ou mapas de genes, ou deambulas por encenações de óperas que te marcam desde a parede do estômago até ao estremecer da espinha; ainda estou a pensar naquele teu encanto inesperado pela modernidade sombria do El Greco, como se fosse um Cézanne da alma, no teu comentário matreiro sobre a velhice de Degas, no olhar superior que lançavas ao impressionismo monocórdico de Monet, mas a minha pena maior foi que não tivesses perdido mais tempo comigo naquele pré hooperiano cenário de Bellotto, já cansado da influência do tio Canaletto, mas ainda sem ter experimentado os singulares destroços de Dresden; não era tão banalmente paisagístico como se calhar supuseste, pelo vício de já tantos teres visto, nem era um mero jogo flamengado de luz, pormenor e sombra, era um campo com alma, sem sangue mas com alma, e com uma torre que fazia daqueles homens ao mesmo tempo insignificantes e donos da perspectiva e do sentimento, e que me fez lembrar que um entardecer e um amanhecer podem estar unidos por um luar. Como o tempo se ganha sempre que o soubermos guardar naquele recôndito, precioso e pulsante lugar.© a.

Publicado por m. em junho 3, 2006 05:00 PM
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