maio 13, 2006

Das nuvens

Deus já calculava que o homem iria inventar o chapéu de chuva, o avião, a gabardina e o sabão. Anteviu que a nossa imaginação ainda nos levaria até aos cavalos alados, à figuração de anjos louros e anafados, a valorizar Olimpos mitificados, a deuses guerreiros e a verdades encontradas em salões de cabeleireiros. Deus sabia que as crianças se iriam rir com o algodão doce, que nos enfunaríamos numa qualquer etérea pose, que as avós fariam farófias beijadas lentamente e que os fotógrafos se perderiam com os sóis a poente. Pensou em ninhos para os pássaros, em bancos para os avaros, em tocas para os coelhos e em penthouses onde mulheres iniciariam fedelhos. Sabemos hoje pelos poetas que Deus nunca sonhou, que desenhou os joelhos das mulheres para que outros os acariciassem, e que semeou o desejo no homem deixando para a chuva da sedução o resto do serviço; mas sabemos hoje pelos pintores que a cor não existe, que pode haver bom sexo sem nada estar em riste, que só há amor quando a dor persiste, que um sorriso é um lar e que no céu há um azul que fica mais triste se nenhuma nuvem o decorar.
Oferece-me então uma nuvem, pode ser um cirro ou um cúmulo, e eu sairei do meu casulo, voarei até lá, e aí farei um secreto recanto onde todas as esquinas serão tuas, e desenharei cornijas com meias luas, esperando pelo canto duma sereia que troque a sacana da barbatana por uma língua de fogo lento, ou por uma saia que se deixe arrebatar pelo vento.
Deus já calculava que o homem iria descobrir o estúpido do avião, que faria do inconsciente um vilão e da moral um sabão, previu que a chuva lavaria, que a memória atacaria, mas sempre em surdina, e por isso deixou-nos o esquecimento como gabardina, rodeada por irónicos desejos, por anjos da guarda e por beijos, e por nuvens: para sonhar e para poder viver sempre a rezar.
© a.

Publicado por m. em maio 13, 2006 06:00 PM
Comentários