(Ou, de nariz entupido, variações em torno de "Les Bijoux indiscrets" *)
'Proust, comediante trágico do ciúme [...] e seus descontentamentos, [...], é fecundo e generoso' na abordagem do tema: 'nenhum escritor se dedicou com tanto afecto e brilhantismo ao comentário e à ilustração desse sentimento excepto, é claro, Shakespeare em "Otelo" e Hawthorne em "A letra escarlate"'.
Ora bem, antes de mais saliente-se o óbvio e repita-se até à exaustão: não sou a autora desta barbaridade já que minha última tentativa de ler Proust foi pela via de uns fascículos em tempos generosamente editados (e comentados em versão escolar com handicap) por uma editora que deve ter-se fanado no esforço porque a coisa não passou do 1º livro.
Aliás, nem estou propriamente a ver quem, senão o blooming man que anda para aí a perguntar onde encontrar a sabedoria, poderia ter tido a pretensão de emitir uma opinião sobre o ciúme excepto aquele, também muito pouco recomendável, médico austríaco que, à data da morte de Proust e no ensaio sobre os mecanismos neuróticos do ciúme e da paranóia, o definia em três (que ele tinha a sua maniazinha com o número três como outros têm com ouvir e ler conversas alheias, lá isso tinha) estágios.
Vem isto nada a propósito de necessidades e desnecessidades: não será necessário um voo nocturno para se descobrir residir o essencial não no que produz a inteligência mas no que salta à vista. Ou por outra, é cada vez mais evidente a imperiosa necessidade de ver editado, em obra conjunta devidamente brochada ao nível da Einaudi (e não apenas de forma fasciculada e rotineira em "belogue"), um ensaio post-bloomiano de igual (ou quiçá maior ainda) importância para a humanidade que um básico e ressabiado artigo de jornal dedicado ao comentário e/ou à ilustração dos pecados mortais, por quem de forma clara e com afecto, afã e brilhantismo, domina intrinsecamente o tema. Afinal como já dizia a nada parva Madeleine, que tanto ajudou Diderot a arruinar-se, a propósito do ciúme (mas extensível à inveja nos dias de hoje em que o sentimento de propriedade e o instinto de roubo tanto se confundem), é uma 'homenagem constrangida que a inferioridade presta ao mérito'.
[Já o tema do blog-climbing, por exemplo, iria muito bem em fascículos gratuitos, anexados como 'quinquilharia cultural' a um qualquer jornal ou revista até porque, 'por definição, obras datadas e literatura sapiencial são antitéticas' e nenhum esforço nosso de empatia, à semelhança do que nos provocam os amantes ciumentos de Proust, será demais. E com a ajuda de mais um daqueles recados que a iluminada amiga do Denis nos fez chegar do século XVIII, por aqui me quedo recordando que «a maioria dos que passam por senhores não o são senão na opinião do povo que os vê sem deles se aproximar. Tocado pelo seu brilho exterior, admira-os ao longe, sem saber que nada tem a esperar deles e nem sequer a temer".]
* Diderot, D. (1993). Les bijoux indiscrets. Paris: Flammarion.
Referências mais-que-esforçadas de quem tenta entender Proust, ciúme ou inveja enquanto espera por publicação adequada:
Bloom, H. (2004). Onde encontrar a sabedoria? Objetiva, R. Janeiro.
Freud, S. (1922). Some neurotic mechanisms in jealousy, paranoia and homosexuality, Penguin Books, UK.
Mme de Puisieux (n. 1720), Les caractères, Conseils à une Amie, excertos online.