Pega-se nuns lápis de pontas bem afiadas
e fazem-se duas cornucópias com um lacinho,
que, em saindo devidamente torneadas
é sinal que estamos no bom caminho;
se não borrarmos a folha nos cantos
podemos arriscar num ‘quanto muito’
a fazer as vezes duns ‘se tantos’,
credo, logo um erro destes e não fortuito,
é então o clássico momento do dedo no nariz
bem decorado com um olhar combalido:
«mas que mal é que eu fiz,
sim, eu que sou tão querido»
Não se deixem enganar, dispensem sermões
e confiem cegamente em mim,
para escrever de rabo a abanar, em nove lições,
há que fazê-lo tal qual assim:
1.
Insultar devidamente mas sem ferir em excesso,
pôr a palavra atrevida e sorrateira debaixo da saia,
exacerbando as borbulhas chamando-lhes abcesso,
mais jamais confundir a Cassandra com a astróloga Maia
2.
Depois há que saber de cor o nome dos hereges
papaguear em bom ritmo as tribos de Israel,
gozar com os sofás em tons beges
e escrever sem medo nas bordas do papel
3.
Ai bordas! mas que palavra tão feia,
alembra-me logo aquelas coisas de roçar,
não fora o Adão ter um bom pé-de-meia
q'andaríamos todos de mãos a abanar
4.
Por esta altura já a ponta do lápis arredondou,
é o momento certo de treinar o sombreado,
de se arrastar insinuantemente a asa com cuidado
e de fazer supônhamos com as cartas do Tarot
5.
É também de elementar bom senso
troçar devidamente das seitas protestantes;
eu para já digo-vos o que penso:
estão para a fé como o chouriço está prá’sandes
6.
Jamais respeitar o decadente verbo haver,
trocar os hás com os às, sem esquecer os ahs
e depois as sintaxpecialistas, hadem ver,
ficam com aquelas caras de bruxas más
7.
E quando chegar a tentação dos 'estilhaços doridos'
com o ingrato coração a querer 'rabiar-nos' a fantasia
é o ponto de treinar uns símbolos obscenos e floridos
mas reparados com a correspondente ave-maria
8.
E depois, quando o paleio saturar o ar
e as palavras começarem a saber a palha
tomemos dois ‘Pankreoflat’ e um ‘Duspatal Retard’
pois não há Santa Métrica que nos valha
9.
Aintão, finalmente, já com o lápes feito côto
e com as entranhas mei’ farinhadas,
fasei, 'quando muito', um olhar piedozo e devôto
dirijido hàs prontuárias diplumadas© a.