"Em justas proporções / A beleza se ajeita / E só num ritmo breve / É que a vida é perfeita." - Ben Johnson
Teimosa, a afirmação de Nietzsche a um amigo (cito de cor) "há muito aprendi ser mais fácil viver com uma má reputação do que com uma má consciência" vinha-me à memória no decurso do mais recente filme de Cronenberg estreado entre nós e cuja tag se resume à evidência "everybody has something to hide". Mais não sendo que mera expressão do óbvio - e por conseguinte do que é próprio da vida-, deixará prever para uns uma volta nos carrinhos-de-choque amolgados do passado, a que nenhum retoque de spray da loja-do-chinês da desresponsabilização-sob-pretexto conseguirá dar solução genuína, enquanto para outros ficará o pesadelo da limpeza dos efeitos de um carnavalesco baile de esqueletos, vindos da arrecadação, no salão principal das três ou quatro assoalhadas que, a custo de muito empenho e esmero na escolha dos 'bibelots' que lhes pareçam mais adequados ou mais fashion - fazer pendant com o exemplo da mamã, animais de estimação ou tapetes de Arraiolos é opcional-, compõem a sub-vidinha de quem ainda não aprendeu que a crueldade é o inverso da sabedoria e que, se a memória pode ser ficção reinventável, o passado não. E para que não faltem a citaçãozinha nem o name-dropping que permitirão a este post, excessivamente longo como as feiras de tasquinhas de vaidades que os portugueses tanto apreciam e insuficientemente críptico para parecer ter conteúdo, ser um post, pego em palavras de Julio Cortázar a propósito do Dom Quijote de Cervantes e, citando novamente de cor, faço-as tag alternativa às histórias de violência: "Quando os deuses abandonam o homem, para sobreviver é preciso chamar-se Ninguém". O que, bem vistas as coisas, nada tem de original, já Garrett o fizera dizer ao Romeiro no "Frei Luís de Sousa", em português de lei.