Tenho pena que não me escrevas, que não me estejas sempre a escrever, sempre, envolta na ingrata monotonia dos sempres, escrevendo para mim, num gerúndio de escrita, que não passes a vida a procurar palavras para me dizer o que sentes, queria que só sofresses por te faltarem palavras para me dedicares, queria ver-te arrastando silabas à espera dum significado luminoso e inesperado, entusiasmo-me na esperança que estejas agora a imaginar metáforas, a arrancar rimas a ferros, a subir sem medo por hipérboles arriscadas, a conjugar versos impossíveis de conjugar sem nós dois, sonho-te a enrolar nos adjectivos que me queres oferecer, sonho-te a desprezar pronomes porque te sabes sujeito sempre presente ao lado dos predicados que inventei para ti. Quero-te prontuariamente, quero-te com todas as declinações em simultâneo, vivo só do que me escreves, genitiva, ablativa, docemente acusativa como um punhal que me criva, mas contento-me em ser teu prefácio, ou em ser apenas uma estrofe de passagem, mas preciso de saber que faço parte dos teus sonetos, que tenho um cantinho reservado na tua métrica, que nunca fugirás definitivamente para o verso livre sem me deixares um dia ter-te no meu colo adormecendo ao som da minha mão a passear-se nos teus lábios, enquanto sussurram palavras tão absurdamente proibidas quando desleixadamente envergonhadas.© a.