Tenho saudades de fotografar por encomenda. Estou farta de fazer o que quero e queria obedecer. Viver que nem carreirinha do tricot, nem precisando de saber quem sou. Isto é mentira, evidentemente, mas para se falar verdade primeiro temos de ensaiar uma aldrabice tipo beliscadela. Mas que é certinho que nem a seta que rachou a maçã na cabeça do catraio do Guilherme Tell, é que a mim ninguém me engana a não ser que eu me queira deixar enganar. Menti outra vez. Sou uma especialista em ludibriar sentimentos nostálgicos. Vem-me esta experiência da bancada do laboratório: quando se ataca com o bisturi já não se pode voltar atrás, podemos quando muito fazer um balanço na fase do microscópio e pouco mais. Poderia agora citar a Emily Dickinson, mas de citar é que não gosto mesmo de fazer por encomenda, fico com a boca a saber a papel, tal como quando me treslêem; quase pareço um homem, assim tão sensível, mas que posso fazer. É por isso que uns dias me dá para a escrita de penumbra, noutros para a de obscuridade, e intercalo com umas bóias à beira mar, atravessadas por diálogos mais ou menos cinematográficos retidos entre tímpanos amestrados e especialmente treinados para o charadismo intelectual. Mas a grande verdade é que a vitrocerâmica me faz uma falta danada, preenche-me aquele sonho do calor sem chama, e por isso agora só me apetece olhar para o mundo com aquele half-smile de Nefertiti , deixando que o faraó pensasse que ela era o seu lado feminino. Nem mais nem menos. Afinal o mais belo sorriso é o comiserativo. Podem encomendar. © a.