março 11, 2006

Apocryphal speaks #2

Hoje a minha amiga Cassandra ligou-me. Estava bem disposta. Disse-me que tinha estado na conversa com o Tirésias e tinha descoberto o fabuloso destino do feminino. Começou por me informar que esta minha combinação de tartes de maçã com o Popper só me podia fazer bem aos nervos e à pele. Estranhei de início, mas isso deve ser daquele fenómeno das associações do inconsciente; felizmente que o mais parecido com um divã em que me tenha deitado foi uma cama de água. Talvez até venha daí uma das saídas de Cassandra: «Tu recalcas ondulantemente, e sublimas aos pingos». Cheguei a temer – com arrepio incluído - uma aproximação ao conceito de pinga-amor, mas aparentemente a Cassandra não estava para aí virada; «o feminino em ti vive-se como um adereço, uma táctica» foi ela logo directa ao assunto, provocando-me, preparando as couvettes onde eu me pudesse encaixar melhor. Olha passa-me é o Tirésias, apeteceu-me logo dizer, mas fiquei pensativa, lembrei-me da Madonna a puxar as calças para cima enquanto caminhava para se sentar ao pé da bandeira americana - que raiva não saber porque penso no que penso - e ‘adereço’ compro, mas ‘táctica’ fernicoca-me ( valha-me Stª Léxica). Felizmente descobri há muito tempo que isso do feminino não dá direito ao estatuto de condição; apesar de cheirar a trocadilho-a-pedir-soutien-queimado: somos mulheres incondicionalmente; no fundo só o masculino reflecte um estado, eu cá sinto-me sempre maternalmente, ou seja: serei eternamente centro de acolhimento. Cassandra nesse momento já desconfiava das suas capacidades, nenhuma profecia suporta o peso de uma alma construída à base de ideias fixas enxertadas em lábios mordidos; a chamada terminou, mas não sem que antes o Tirésias se tivesse intrometido com as buchas da ordem: «eu cá quando fui mulher do que gostei mais foi de pintar as unhas». Agora descortino o enigma: o destino do feminino é aproveitar o arco-íris que os homens temem porque para além de serem incapazes de conjugar o sol com a chuva, gostam de o tapar com a peneira, ou com as peneiras. Toilettes aparte. © a.

Publicado por m. em março 11, 2006 11:16 PM
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