Dizem-me que por vezes tenho escrita de homem, que tenho de me distanciar dos assuntos para que eles não me excitem para lá da decência. Se bem que seja daquelas que apenas vê diferença entre os homens e as mulheres pelo tempo que passam no cabeleireiro e pelo feitio da cintura, a minha condição de bióloga atraiçoa-me frequentemente nessa vertigem que é a descoberta da fuga aos padrões. Anoto como eles guiam, como eles bricolam, como eles se riem, como eles gerem as pausas; têm a rainha das virtudes que é a previsibilidade, e o seu escudeiro mais fiel é a cobardia. A mulher que cá canta, saída daquela costela mais elipticamente arredondada de Adão, permite-me generalizar sem precisar de grandes amostras, compro o mundo ao preço dum pormenor e revendo-o a quem quiser pelo preço justo dum sofisma bem disfarçado pelo batôn da tagarelice, essa um terço deusa, um terço feiticeira, um terço anestésico. Neste momento estou incomodamente dentro de mim, o que me causa a desagradável sensação de sinceridade que nenhuma mulher consegue suportar por muito tempo. Vou ter de vos deixar por agora, preciso de fazer uns doces e tratar do androceu que me rodeia que nem um istmo de fecundidade ligado ao continente apenas pela lei da sobrevivência uterina. © a.