(Ao cuidado da girézima tia Paula B., imensamente mais fantástica que o guru-Botmelifluo-toncarecazinho da Elle)
B.-H. L.: Ele diz isso num outro contexto, felizmente. E sem nunca nos afirmar que em cada um de nós há um andrógino adormecido!
F. G.: Robert Musil também fala, em O Homem sem Qualidades, desse «desejo de um duplo do outro sexo que se nos assemelha absolutamente sendo outro, de uma criatura mágica que seja nós ao mesmo tempo que tem a vantagem de uma existência autónoma»... Segundo ele, as grandes, as implacáveis paixões amorosas estão todas ligadas ao facto de que um ser imagina ver o seu eu mais secreto a espiar atrás da cortina dos olhos do outro...
B.-H. L.: Não devo ter a mesma ideia da «grande paixão amorosa». Se tivesse que a definir, diria, ao invés: o amor nunca é tão grande como quando temos diante de nós um outro diferente de nós, estranho a nós — o contrário desse duplo cúmplice, dessa imagem invertida, desse reflexo...
F. G.: Já alguma vez sentiu uma paixão súbita, Bernard? Há, no começo de uma paixão, qualquer coisa de que se guarda sempre a nostalgia, e que é, sem dúvida, essa ilusão de fusão.
B.-H. L.: Não. Justamente o que impressiona, na paixão súbita, é, pelo contrário, a estranheza do outro. A sua vertiginosa estranheza. E é dela que, depois, se guarda a nostalgia...
F. G.: Ah! De maneira nenhuma. O que é vertiginoso na paixão é a sensação de reenconto, de ambas as pessoas terem sido feitas desde sempre uma para a outra.
B.-H. L.: Muito romântica... É decididamente muito romântica...
F. G.: «Romântica», creio que não. Estou a tentar descrever um sentimento muito comum.
B.-H. L.: Nunca tive o sentimento de ser «feito» para quem quer que fosse. O encontro, porém, com alguém radicalmente diferente, a emoção face a essa diferença, a impressão de que é, como dizer?,inimaginável e de que o prazer que proporcionará será, portanto, inesgotável — eis, para mim, a paixão.
F. G.: Pensa, como o príncipe de Ligne, que o que há de melhor no amor é o começo e que por isso se deve recomeçar muitas vezes ?
B.-H. L.: Se quiser. Mas com a condição de acrescentar — variante que talvez a surpreenda — que também não é mau recomeçar, várias vezes, com a mesma...
F. G.: Um belo programa. Estou de acordo. Mas então, abdica da estranheza que parece ser a motivação de tantos homens — e de que me falava há instantes?
B.-H. L.: Não, não forçosamente! Porque o outro, como lhe dizia, é estranho. É-o essencialmente. E pode passar-se uma vida, portanto, a explorar a sua estranheza.
F. G.: É um sofisma. Está a jogar com as palavras.
B.-H. L.: Não. Julgo que não. Há outro prazer, além disso, bem conhecido dos enamorados e no qual a sua frase do príncipe de Ligne me faz pensar: é o que consiste — pois ele diz que não há «nada melhor que o começo» — em evocar, reevocar sem fim, o encanto desse começo.
F. G.: Sim?
B.-H. L.: Aquele rosto que se conhece melhor. A silhueta mais familiar. O olhar, o sorriso imperceptivelmente — ou mesmo, por que não?, profundamente — diferentes. E a doçura que se sente, de súbito, ao fechar os olhos por um instante, ao voltar ao passado e ao tentar discernir, de novo, esse ser simultaneamente o mesmo e outro que era a mulher amada no instante do encontro — quando nada estava decidido, quando ela era uma estranha para nós e não sabíamos se seria nossa ou não...
F. G.: Esse seu discurso é muito feminino... A evocação dos começos, o gosto de reviver o passado... O tom de melancolia... São as mulheres que amam com melancolia. «Sou feliz mas estou triste», diz Mélisande. Os homens apaixonados e amados, pelo contrário, ganham asas... Querem conquistar o mundo. Quem foi mais apaixonado que Napoleão?
B.-H. L.: Estou a tentar esclarecer um pouco essa questão da «estranheza». A estranheza clássica, sem dúvida. A de uma nova «conquista», como se costuma dizer. Ou seja, de um corpo sonhado, adivinhado, desejado — e que, de repente, se desvela entre os nossos braços. Mas há uma outra estranheza, pelo menos igualmente apaixonante: é a que perdura mesmo numa mulher que se conhece ou julga conhecer.
F. G.: Sim.
B.-H. L.: Ora, é essa estranheza que aqui me interessa. Era dela que lhe falava. E era nela que pensava quando lhe dizia, há pouco, que não acreditava nessa história de fusão, de androginia, etc.
F. G.: Eu percebi.
B.-H. L.: Pode viver-se dez anos, doze anos, com uma mulher. Ter por vezes o sentimento, neste ou naquele domínio, de uma extrema aproximação. Chega sempre o momento em que se descobre que ela é outra, irredutivelmente outra. Será algo para lamentar? Dizer: «Que pena! Que mal-entendido! Que distância!» Claro que não. Pelo contrário! É o encanto do amor... A sua fonte inesgotável... Ele vive, alimenta-se desse género de mal-entendidos...
F. G.: Alimenta-se ou morre... O entendimento consiste justamente em eliminá-los, tanto quanto possível, ser transparente um para o outro.
B.-H. L.; Não! De modo nenhum! Seria o meio mais seguro, pelo contrário, de deitar tudo por terra. Um casal em que se eliminou toda a parte de mal-entendido, é um casal que não tem, literalmente, mais nada a dizer. Aliás, admitiu que nunca se é transparente!
Giroud, Françoise & Lévy, Bernard-Henri. (1993). "Os Homens e as Mulheres". Lisboa: Editorial Inquérito. (pp 83 a 87)