
Desenhos de Kafka © Franz Kafka, Max Brod & Gallimard (1945/49)
"Forte averse. Offre-toi à la pluie, laisse ses flèches d'acier te percer, glisse à travers l'eau qui veut t'entraîner, et malgré tout demeure, attends, debout, le soleil qui t'inondera brusquement et sans fin."
Desenho e excerto dos Carnets de Franz Kafka, in Brod, M. (1949). Franz Kafka - Souvenirs et Documents. Paris: Gallimard. (Trad. alemão-francês por Hélène Zylberberg)
há alturas na vida em que não necessito que seja mais do que um espólio de fragmentos seleccionados pelo esquecimento. À saída da infância perdi para a lareira de uma guerra de outros toda a biblioteca que o meu pai construiu, e que consigo transportou através dos continentes por onde a vida o fez andar, ao longo de mais de vinte anos. Desses livros por onde aprendi realmente a ler, tantas vezes às escondidas, guardei uma memória agarrada à das terras onde os fui conhecendo e, fosse por capricho ou, mais provavelmente, por temor de desilusão, fiz questão de não os adquirir nem os reler na idade adulta.
Exactamente no mesmo mês de Outono mas trinta e um anos depois, foi-me oferecida a biblioteca pessoal de uma mulher nascida pela mesma época que o meu pai. A oferta trazia, ainda sem me terem sido dados a ver os livros, uma dedicatória e uma responsabilidade: "Tive sempre tanta pena que não a tivesses chegado a conhecer que a única forma que encontro de resolver isso, agora que ela morreu, é dar-te à escolha, antes de mais ninguém, os livros. Acho que ela, lá onde estiver, vai gostar que fiques com eles porque vocês as duas são as pessoas que conheço que mais vi gostarem e respeitarem os livros."
A maior parte dos livros eram raros, alguns verdadeiras preciosidades dos anos 40 e 50; os autores criteriosamente seleccionados entre o melhor que a literatura europeia, e nomeadamente a de língua alemã e inglesa, menos um pouco a francesa, terá dado ao mundo nos séculos XIX e XX. Ensaio e crítica literária, muita filosofia e poesia, romance, narrativas diversas, foi o que encontrei em centenas (milhares?) de volumes cuidadosamente organizados ao longo de metros e metros cúbicos de estantes. Outros livros, bem menos frequentes, tão comuns como os que se podem comprar hoje em dia num qualquer hipermercado.
Fiz uma escolha ditada bem mais pelo coração que pela razão sabendo, à partida, que os que deixasse seriam entregues ao cuidado de uma instituição de ensino superior. Alguns terão de ser recuperados por profissionais, os ácidos do papel antigo são algozes implacáveis, as colas e as linhas com que eram montados em nada se comparam à qualidade dos materiais actuais. Quando no início da semana um dos meus filhos comentou só ter visto, em casa de alguém da sua geração, uma biblioteca com o tipo de obras que se habituou a ver e ler desde a infância na casa em que vive, tive curiosidade em saber a quem se referia. Não poderia ter-me espantado mais: era uma biblioteca acabada de herdar por uma das suas melhores amigas e construída por uma mulher da minha idade, e por conseguinte da idade da sua própria mãe, recentemente falecida num brutal acaso.
A biblioteca a que pertencia o conjunto de livros que escolhi, como penso o serão sempre as das pessoas que amam os livros, era bem mais do que uma colecção de livros manuseados e anotados, era parte da alma, da carreira e da vida da mulher que a construiu e com quem não cheguei a cruzar-me em vida. Não sei o que fará a jovem com a biblioteca herdada nem até que ponto, na idade que tem, será já capaz de perceber que pode conhecer uma outra dentro da mulher que a escolheu. Quanto a mim sei que aos poucos, à medida do tempo em que aqueles livros vão fazendo parte dos meus dias e da minha vida num convívio, imagino que nem sempre pacífico, com os meus, vou aprendendo a respeitar, cada vez mais, a intimidade de uma mulher que a vida me deu a conhecer, através de memórias fragmentárias de anotações a lápis e tipos antigos, por linhas tortas em livros velhos.
"We want nothing, to do with anything, that's over that hedge!"
Verne in "Over the Hedge", realização de Tim Johnson e Karey Kirkpatrick (2006)
Há duas vias para consultar os deuses e o destino: uma consiste em desencriptar as mensagens enigmáticas que intermediários recolhem junto dos deuses (a via intuitiva referida por Platão), a outra em interpretar sinais provenientes do meio (a via indutiva). Mau grado o insucesso de Nícias (a luz selenita pode ser muito ilusória, já dizia o poeta das rimas leoninas), nem sempre crer nos oráculos significa renunciar a toda a racionalidade (a via dedutiva), apenas a alguma. A necessária para compreender que os deuses (cuja existência, tal como a do destino, não se questiona) não serão tão todo-poderosos quanto se possa, de ânimo leve, crer pelo que terá de se fazer confiança nos adivinhos ou nas pitonisas convertidos em eficazes pombos-correio ao serviço da divulgação de intenções e desígnios divinos. Ou ler muito Peirce (para a praia sugere-se, pragmaticamente, a via Sherlock Holmes ou Cahiers Science & Vie mas não se recomenda Eco ou EPC) até aprender o bastante sobre abdução.
Não terá sido por acaso que Hannah Arendt considerou sua favorita, e "uma das maiores histórias de amor de toda a literatura", esta versão de Broch de um Don Juan no feminino. É a imagem do ressentimento vazio e da prepotência cega, a que são alheios o afecto e a compaixão, escrava dos desejos e da violência até à crueldade a quem a ilusão de juiz plenipotenciário sobre a vida e a ética dos outros (que não da sua) torna imune à bondade e que nada nem ninguém parece saber parar na descida aos infernos para onde se arrasta levando consigo quem lhe seja próximo, esta Zerlina que conta a A. a história adivinhada de uma viuvez em vida. Uma história de vida alicerçada na mesquinhez contra a, talvez "vazia" e tonta mas seguramente amada, "rainha das fadas" dos "chorrilhos sentimentais" e em cujo final, sobre os cacos de todas as vidas que destruiu (incluindo a sua), se refugia na justificação-expiação, tornada então patética, de um amor. Quando, ao terminar a história, usa a chave "eu amei-o a minha vida inteira, com toda a minha alma", escuda-se de algum modo numa variante 'sui generis' de uma ética 'à la Lévinas' e torna-se, com este "chorrilho sentimental" em nada diferente dos que critica, apenas o verso inalienável, porque inexistente sem ele, do reverso do todo que é o ser humano.
Mas se Heiddegger (o amante vampírico a quem Arendt terá amado por "toda a vida" e possivelmente com "toda a alma") reitera, em "O Ser e o Tempo", a imposição inaugural da filosofia que Platão escrevera n'"O Sofista" - "É preciso parar de contar intrigas" - se calhar torna-se mais fácil perceber o apego de Arendt a esta pequena (e belíssima, sem dúvida alguma) 'história' de Broch integrada em "Os inocentes". Ah, o eterno feminino? Volta Teresa Guilherme, estás perdoada! Porque, pedindo emprestado um pedacinho de uma ideia a Lévinas, a intriga é o pecado original decorrente da existência do Outro.