Wn - 06
"I love those moments. I like to wave at them as they pass by."
Jack Sparrow, in Pirates of the Caribbean: Dead Man's Chest (2006), realização de Gore Verbinski
(muda aos 3 acaba aos 6))
- À alma não se aplica o conceito de ‘simplicidade’ (versus complicação) mas sim o de ‘coesão’ (versus dispersão/diversidade). A alma é um constituinte coeso e por isso fortemente ligado ao conceito de individualidade, por mais que algumas corrente filosóficas, certamente sob o efeito da ginginha, queiram fazer levar a crer o contrário.
- Com princípio, claro. Tudo o que tem movimento, vida – animae – precisa dum princípio (a física e o bilhar explicam). Tal como toda a animação precisa de alguém mais descarado que dê o pontapé de saída.
- A alma é um protótipo da inércia em estado puro; é aí que radica a sua, dita, imortalidade. A expressão ‘determinação intrínseca’ é um jogo de linguagem, não há ‘intrinsequidade’ no ser, tudo lhe é dado exteriormente; muita da retórica metafísica é uma construção mental a pedir um hamletiano: ‘menos arte e mais assunto’ por favor.
- A alma representa a transitividade, e por isso se dá tão bem com o corpo que se borra todo com os conceitos de ‘geração’ e ‘morte’. A alma é um eterno ‘até ver’, expressão toda ela muito ao gosto de meninas com vocação para serpentes. © a.
(silly season quiz)
A bem dizer e à distância, há a tentação de desculpar Platão por estar de atestado (o artigo 102 não se aplicava) aquando da morte de Sócrates. Mas também a de sentir uma levíssima irritação (de reconhecimento) pela precisão cirúrgica com que Hegel afirma, a propósito do Fédon do ausente, que mitifica onde não pode raciocinar. Posto isto, quem, sim quem?, se atreverá a considerar aporias (entre todas as que por lá andam, um pouco menos que gente a esta hora nas praias, felizmente) questões simples e refrescantes como estas, encontradas na notícia histórico-filosófica a uma edição Atlântida de 1947:
- A alma é simples, como implica a sua incorruptibilidade, ou multifária, como parece exigir a variedade das suas funções?
- Sendo preexistente ao corpo, a sua preexistência é sempiterna, isto é, sem princípio nem fim, ou eviterna, isto é, com princípio mas sem fim?
- Se é eviterna, como pode ter em si própria, por determinação intrínseca, a razão da sua imortalidade?
- Se é sempiterna, como pode coexistir com os corpos que se dão no devir, isto é, na realidade transitiva da geração e da morte?
[Patrocinado por uma bebida qualquer.]
(*) "Eu gosto é do Verão", Fúria do açúcar
A arte de António Jorge Gonçalves.
Porque será que tantos autores dos blogs fazem tanta, e com tão grande prolixidade, questão de falar nas "suas verdades" sobre o que, de todo, não sabem, como é o caso das razões efectivas na génese do actual conflito Israel - Líbano? Será impossível a tão ciosas almas compreender que nem que se esbulhem e esmifrem virão alguma vez a saber senão uma ínfima parte do que é vendido por quem sabe o que faz (chama-se propaganda ideológica e quem viveu a guerra colonial conhece-lhe bem o poder) às agências noticiosas como quem dá milho envenenado a pombos lerdos?
(*) Luigi Pirandello, "Chacun sa verité", 1969, Paris, Gallimard.
Ah, com vénia e de acordo com a mais recente norma blóguica de citação aqui enunciada, a qual passo a respeitar, religiosamente como convém: estante 1, coluna 3, prateleira 1.
Langenlois - 06
"A man can convince anyone he's somebody else, but never himself."
Roger "Verbal" Kint, in The Usual Suspects (1995), realização de Bryan Singer
(a propósito de choros e insónias doutros e em alternativa à fatuidade da arrogância de quem se afoga nas certezas)
"Viver uma vida feliz, irmão Gálion, todas as pessoas o desejam, mas quando se trata de compreender em que consiste a vida feliz, tudo se toma menos claro; por isso, não é fácil conseguir ter uma vida feliz e, se nos enganamos no caminho, quanto mais nos apressamos em obtê-la, mais dela nos afastamos: quando se segue o caminho contrário, a velocidade só aumenta a distância. [...] De facto quanto errarmos por aqui e por ali sem outro guia para além dos gritos e dos clamores discordantes entre si, que nos indicam diferentes direcções, desperdiçaremos a nossa vida, que os erros tomam ainda mais breve, mesmo que trabalhemos dia e noite com a melhor das intenções. [...] O melhor é não seguirmos como ovelhas os rebanhos daqueles que nos antecederam, dirigindo-nos não para onde devemos ir, mas para onde todos vão. De facto, não há nada pior do que seguirmos os rumores, julgando que as melhores ideias são aquelas que são aceites pela maior parte das pessoas, tomando como exemplo a maioria e vivendo não de acordo com a razão, mas por imitação."
Excertos de "Da vida feliz" (I.1, I.2 e I.3), Lúcio Aneu Séneca (selecção pessoal a partir de uma versão francesa de 1957 e de uma tradução portuguesa de 2006 na Ésquilo)
"Escuta com os teus ouvidos: troca as posições e adivinha qual é o juiz e qual é o ladrão."
Shakespeare, "Rei Lear", 4.5
(ou das boas razões para continuar vegan)
Com algum atraso face à sua edição, em Maio, no Dodo, mas ainda e sempre com oportunidade, é bem capaz de ser uma resposta à altura, tipo panoencharcadonaspêsdastrombasnãoseisetãoavêre, para uns e outros nojos blogosféricos postiços:
Ao contrário da Alexandra, acredito que o corpo guarda, à sua maneira e de uma forma que nem sempre será a que se idealizou mas porventura bem mais sábia, marcas de todas as coisas importantes que nos acontecem na vida. Reconhecê-las poderá advir de um acaso ou de uma necessidade. Identificá-las será, em tantos casos, um exercício de criptografia. Sobreviver-lhes é, em todo o caso, uma acrobacia ao jeito de bungee-jumping com a alma.
é ser "A vida secreta das palavras" dos filmes mais humanos, e por isso mais belos e dolorosos, que terei visto desde "Dogville". E será também dos mais subestimados pela mainstream porque a vida de homens comuns num não-lugar no mundo ocidental, sem crises de exoticismo hermético e panfletário nem divas siliconadas ou músculos plastificados, pede o tempo e a disponibilidade que vão mal com a vacuidade. Ou porque desde o nosso confortável sofá de nadas adiados não gostamos que nos destapem os olhos para a iniquidade da guerra, de todas as guerras mesmo as privadas, e nos rasguem a frio a alma ainda que ao som de "All the world is green" pela voz de Tom Waits.
Perguntei-me o mesmo até admitir o efeito vintage do ano de colheita.
[Mas convenhamos para os devidos efeitos públicos: alta é a plataforma, giro o pôr-de-sol e grisalho... não se encontra nada, só o sal-e-pimenta por tempero indispensável aos mexilhões.]
Nota: o "nariz de reco" do moço é apenas um pormenor, a imperfeição necessária à genuína sedução.
Meta-metabloguismo(s) #n.
Cito Jorge de Sena (*): "De facto, quando tanta gente se ocupa em ouvir-se nas vozes dos outros, não consegue, na verdade, ouvi-las.
(*) Sena, J. (1953). "Sobre a poesia, com variações sobre a sinceridade...". In O Poeta é um Fingidor (1961). Lisboa: Edições Ática. (pg. 17)
S. Paulo - 06
O edifício fotografado localiza-se na zona histórica de S. Paulo, próximo da praça (cujo nome não anotei, infelizmente) onde se encontram também o Pateo do Collegio e a casa de Anchieta; está abandonado e num estado de degradação assinalável (visível na imagem, de resto). É um prédio alto e inestético, característico de um certo tipo de arquitectura dos anos 50/60, possivelmente antes ocupado por escritórios e com mais de uma dezena de andares. Os graffittis, aparentando terem sido feitos a partir de apoios nos rebordos exteriores de cada andar, ocupam, a toda a largura, os seis últimos andares.
A Photograph Of Me:
It was taken some time ago.
At first it seems to be
a smeared
print: blurred lines and grey flecks
blended with the paper;
then, as you scan
it, you see in the left-hand corner
a thing that is like a branch: part of a tree
(balsam or spruce) emerging
and, to the right, halfway up
what ought to be a gentle
slope, a small frame house.
In the background there is a lake,
and beyond that, some low hills.
(The photograph was taken
the day after I drowned.
I am in the lake, in the center
of the picture, just under the surface.
It is difficult to say where
precisely, or to say
how large or small I am:
the effect of water
on light is a distortion
but if you look long enough,
eventually
you will be able to see me.)
Atwood, M. (1998). "This Is A Photograph Of Me". In The Circle Game. Toronto: House of Anansi. (p. 3)
A propósito do "fascismo da vulgaridade" (*):
"É essencial ser elitista - mas no sentido original da palavra: assumir responsabilidades pelo «melhor» do espírito humano."
Riemen, R. (2006). "A cultura enquanto convite". In Steiner, G. (2006). A Ideia de Europa. Lisboa: Gradiva. (p. 17)
(*) George Steiner
Dum lado estão os que sofrem por desnecessidade
Do outro estão os que não sofrem por distracção
Começam os primeiros apostando na antecipação
Reagem os segundos sacudindo na displicência
O primeiro choque dá-se quando os olhares se desencantam
O segundo, já em queda, quando se voltam a encantar
O jogo interrompe-se ao som dum ai Jesus
Reata-se com a corneta a tocar um Deus me livre
Enquanto uns ajeitam a franja da barreira
Os outros treinam o estalar da folha seca
Nas pausas os primeiros baixam a cabeça meio dormente
Mas os outros lambem o suor morno do pescoço
Nos festejos, enquanto uns se sentem filhos dum deus menor
Também sobressaem os que guardaram religiosamente o pavio da vela acesa
Não há rescaldos no fosso;
a sorte não se deixou cozer,
Dura que nem um osso
Era o tal amor por fazer
© a.
Há exactamente dois anos, numa conferência na FPCE, Daniel Dennet projectou um recorte de uma Science de Junho de 2003 em que se podia ler o pequeno texto que se segue (Giulio Giorello, Corriere della Sera, 1997):
"Sì, abbiamo un'anima. Ma è fatta di tanti piccoli robot."
Continuo a pensar como no final daquela tarde: é talvez por isso que o amor está para além do bem e do mal.
Sugestão de 'aperitivo' dennetiano: L'evoluzione della libertà.
"[...] nenhuma decisão é indiferente, nenhum acto é neutro e, portanto, a vida é o [..] exercício de liberdades e responsabilidades associadas."
Paula Teixeira da Cruz, agnóstica, in Única (Expresso nº 1758)
por quem saiba aprender com o que lê e prefira fazer da existência a obra de arte livre e veemente que inquieta e indigna os que, preferindo a obediência da horda à criação pessoal e plural de novas possibilidades de viver e conviverse querem vigilantes implacáveis e administradores zelosos
"Uma obra de arte", por José Manuel dos Santos ("Impressão Digital" in Actual, Expresso nº 1758)
Há no Porto, na zona da Ribeira, um baixo relevo votivo enegrecido pelo arder contínuo das velas acesas pelos crentes, em memória das vítimas do desastre da Ponte das Barcas, ocorrido durante as invasões napoleónicas. Da memória familiar que dele trago - pelos da minha família que lá terão morrido - e das vezes em que posteriormente por lá passei enquanto residi naquela cidade - a deixar memórias agarradas a pedidos egoístas ou a rezar por quem perdi naquele rio - retive um inexplicável silêncio paredes meias com o bulício do mercado de levante próximo ou do tráfego na ponte. Hoje é esse o silêncio que Lisboa me oferece: o metro quase vazio, as ruas tranquilas, o alheamento ensonado dos peões, as vozes baixas das pessoas no café, tudo a lembrar a insonora resignação da guitarra portuguesa no fado. E concluo: apenas os franceses mudaram, não as 'alminhas da ponte'.
Era um cão que tinha um marinheiro. O cão perguntou à esposa, que se pode fazer de um marinheiro? põe-se de guarda ao jardim, respondeu ela. — Não se deve deixar um marinheiro à solta no jardim, que fica perto do mar. Um marinheiro é uma criatura derivada por sufixação, e pode recear-se o poder do elemento de base: o radical mar. Em vez de guardar o jardim, ele acabaria por fugir para o mar. — Deixá-lo fugir, disse a esposa do cão. Mas ele não estava de acordo. Que um facto deveria ser esse mesmo facto até ao limite do possível: quem possui um marinheiro para guardar o jardim deve procurar mantê-lo a todo o custo, assim como o cão, ou o casal de cães, que não tiver um marinheiro deve não tê-lo até a isso ser absolutamente forçado. — Nesse caso, só nos resta ir para uma terra do Interior, longe do mar, disse a cadela. E então foram para o Interior, levando pela trela o marinheiro açaimado.
Helder, H. (2001). "Os Passos em Volta". Lisboa: Assírio & Alvim. (p. 125)
A bem portuguesa tradição de solidariedade assim como a facilidade que demonstramos em criar amigos são indesmentíveis para as pessoas de boa-fé. Imagine-se uma situação - meramente hipotética! - que num país como este, em que as virtudes da honra são levadas em ombros ou penduradas nas varandas como as bandeiras de marketing bancário, jamais poderia ocorrer e seria mesmo vista como nepotismo. Uma jovem senhora, por mera hipótese filha do à época presidente da república da estandartolândia, dedicava o melhor do seu saber e esforço a actividades de voluntariado e apoio a organizações não governamentais de solidariedade para com, por certo, nobres e humanitárias causas; terminado o mandato do progenitor é convidada, dada a experiência profissional anterior no apoio a necessitados, amplamente atestada por currículo condizente, a ocupar o cargo de adjunta de um, por mera hipótese também, ministro, auferindo um modestíssimo salário de cerca de 3000 € mensais (despesas de representação não incluídas). Como é óbvio nada disto se poderia passar em Portugal mas, a passar-se, apenas significaria que - desde que o Estado vendeu grande parte das 'jóias da coroa' que eram as empresas públicas onde os poleiros vagos nunca faltaram nas épocas de pousio de uns e outros - temos grandes amigos a mais e bons empregos a menos. E é que seria só mesmo isso.
(*) Título de uma peça de teatro de Shakespeare.
"Não se deve mexer nos ídolos: o dourado fica-nos agarrado às mãos."
Flaubert, G. (s.d.). Madame Bovary. Lisboa: Publicações Europa-América. (p. 260)
Oh baby when you talk like that
You make a woman go mad
So be wise and keep on [...]
Come on lets go, real slow
Don't you see baby asi es perfecto [...]
See, I am doing what I can, but I can't so you know
That's a bit too hard to explain [...]
Oh baby when you talk like that
You know you got me hypnotized
So be wise and keep on [...]
De memória: "Hips Don't Lie" por Shakira logo após 'I'll survive' por Gloria Gaynor. Há manhãs perfeitas desde que não haja ideias tristes. Como cair no que presumo ser uma romaria semanal ao IKEA só para comprar velas. Ou outras.