junho 30, 2006

Mirror cage #1: The Dowsing Pendulum


Langenlois - 06

"The wizard? But nobody can see the great Oz, nobody's ever seen the great Oz... even I've never seen him!"

Guardião da Cidade Esmeralda em The Wizard of Oz (1939), realização de Victor Fleming

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junho 29, 2006

Reflexões com o zipper

Uma pessoa levanta-se e dá consigo a ouvir o matraquear de um clássico, tartamudo e crispado até à ininteligibilidade mas cheio de suposta comunicabilidade intertexual:

"quando eu vim / para esse mundo / eu gabriela / gabriela ié meus camaradas / eu nasci assim / e hei-de ser sempre assim / gabriela / sempre gabriela / é assim que eu sou / gabriela sempre / não atinava em nada / hoje eu sou eu cresci assim / eu sou mesmo assim / vou sempre igual / amo gabriela que não atinava em nada / hoje eu sou eu cresci assim / e sou mesmo assim / vou batizar quem me nomeou / pouco me importou gabriela / quando eu vim para esse mundo / eu gabriela / gabriela ié meus camaradas / eu nasci assim / para ser sempre assim gabriela / sempre gabriela / eu sou o natural etc e tal / gabriela sempre" (*)

E naturalmente, após uma ligeira análise de conteúdo e sem sequer necessitar do auxílio de uma calculadora de merceeiro - quanto mais do SPSS - para as redundâncias, não se pode senão ficar a pensar que os únicos bons juízes de nós próprios somos nós mesmos. Oh ié!

(*) Recorte aleatório sobre o tema "Modinha para Gabriela", de Gal Costa.

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junho 28, 2006

Bolsa de valores #6

Descobri-o há mais de um ano no acaso de uma pesquisa ao Google -- "cuadernoblues". Continuo a lê-lo e a perguntar-me: com a proliferação de blogs portugueses porque não há ainda, na blogosfera portuguesa, o que quer que seja que se lhe assemelhe, ainda que em sombra, para além do quase contemporâneo -- e discretíssimo mas imperdível -- "Persona"?

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junho 27, 2006

Uma questão de ritmo

Admito a minha inabilidade para lidar com algumas traduções de mandarim. Na com que me confronto por estes dias a palavra portuguesa "hostil" escreve-se "óstil". O que me leva a um certo bem-estar é reparar que a presença suspensa da bailarina-em-pontas que é o acento agudo ajuda a aliviar, de forma etérea e quase musical, a ausência do "h" mais mudo que um mantra.

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Ainda a glória

(Porque se me hão-de estragar o blog que seja com todos os matadores e o ferro curto é m.eu)

Siamo così legati ai nostro corpo
da non immaginarne la sopravvivenza
che come un fiato, non un flatus vocis,
fatta eccezione per i soprassalti
di un tavolino che una versiera ad hoc
a modo suo manovri per far cassetta.
Ma una trasformazione che non sia
inidentità come può immaginarsi?
Così il grande e ventruto Kapdfer,
tale il nome di guerra benché non legato
a imprese eroiche o erotiche degne di un Margutte,
trent'anni fa un fantasma evanescente
distrutto dalla droga, poi risorto
tutto d'un pezzo non più riconoscibile
per la sublime sua inutilità,
compì il suo capo d'opera morendo
senza lasciare traccia che lo perpetui a lungo.
Chissà che
simili vite siano le sole autentiche,
ma perché, ma per chi? Si batte il capo
contro la biologia come se questa
avesse un senso o un'intenzione; ma
è troppo chiedere.

Montale, E. (1990). "Gloria delle vite inutile". In Tutte le poesie, Poesie disperse, Parte terza. Milano: Oscar Mondadori. (p. 864)

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junho 26, 2006

'Retratos do Trabalho'


Fonte: © FIFA

"La pâleur montre jusqu'où le corps peut comprendre l'âme."

Cioran, Le crépuscule des pensées (Paris, Le Livre de Poche)

© a. et al.

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Bolsa de valores #5

Se nunca os viu em cena, atreva-se a visitá-los um dia destes num sítio histórico perto de si. E fique, no fim, à conversa com eles para perceber melhor o epítome: "Não resistir a uma ideia nova nem a um vinho velho." E não se admire se, de repente, sentir uma enorme vontade de repetir. Não é impulso, é normal.

Nota: pense nas estrelas de uma noite de Verão. Não, não é essa ainda mas de Shakespeare há uma reposição de Hamlet, no Convento de Cristo, já a partir de Julho próximo.

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junho 23, 2006

O preço certo

Há, pelo menos, um.

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junho 22, 2006

Mirror cage #1: The Hidden Inner Circle


Langenlois - 06

"I know everything about everything."

Estaline em The Inner Circle (1991), realização de Andrei Konchalovsky

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Do necessário desagravo (*)

O french kissin' agarra, também ele!, a velha questão do confronto entre críticos e respectivos alvos. É consabida a necessidade de maturidade e lucidez por quem se submete a veredicto público; e sê-lo-á tanto mais quanto na sua exposição faça uso, para enrolar uma ou outra ideia peregrina - por exemplo religioso pensemos naquelas que não interessam sequer ao Menino Jesus, cuja generosidade naïf ninguém de boa fé questionará -, da montra que são os meios de comunicação social. Excluídos das feiras de vaidades estarão, naturalmente, os profissionais (jornalistas devidamente reconhecidos pelos respectivos órgãos de acreditação profissional) se bem que não considere que o exercício da função seja motivo suficiente para os isentar, de forma menorizante, de avaliação por parte de quem os lê (e julgo que nem os próprios o desejarão).

Um jornalista que escreva num blog é duplamente avaliado - e tem de ter consciência desse facto como a terá da origem da sua visibilidade blogosférica; um especialista numa qualquer área ou um 'blogger' que escrevam como cronistas num jornal são-no de forma semelhante - e, ainda que poupados - ou sobrevalorizados - no padrão de exigência com que tantas vezes são lidos, têm de ter a lucidez de compreender que às vezes "[o crítico] não passa de um homem tenso e invejoso que não chega aos calcanhares dos pés com que [o cronista] escreve".

(*) A partir da ideia de uma lúcida senhora que não escreve em blogs 'porque não lhe pagam para isso' mas que devia escrever neste, tão bem domesticado que até se actualiza sem que ninguém cá edite!

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junho 21, 2006

A (des)propósito de Shakespeare

Há alguns dias uma psicóloga clínica chamou publicamente a atenção para um bom tema de tese de doutoramento: a fortíssima correlação positiva entre um padrão de anormalidade (traduzida, nos elementos analisados, em negatividade, insanidade, ausência de sentido crítico e desequilíbrio a roçar o delírio glossomaníaco ou de vida-por-empréstimo) no conteúdo dos posts de alguns blogs e a total subversão (partindo do princípio que se trata de adultos com actividade laboral diurna) do ritmo circadiano dos respectivos autores, visível através das horas em que fazem a sua edição. E quando concluiu: "só ainda não percebi se esta coisa dos blogs nos aliviará as consultas de psiquiatria em geral se as de sono em particular" lembrei-me de outras soluções terapêuticas possíveis para a patologia em análise. Várias e, estou em crer, bem mais eficazes.

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Em nome do Verão


Hyacinthus nonscriptus, Klk - 06

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junho 20, 2006

Entre a imanência e a transcendência

[ou coisa que o valha antes de me dedicar ao efeito de especiarias sobre coiratos assados em rulótes à beira do estádio]

A Bíblia é livro que, de forma alguma, me é familiar e, por muitas razões, chega mesmo a ser-me estranho. Ao tornar-me proprietária de um pequeno (e básico e palavroso e até abrejeiradote) mas bem curioso livro, da autoria de uma irreverente jornalista do France-Culture, estava bem longe de imaginar todo o potencial de divertimento inteligente que as histórias das mulheres da Bíblia podem proporcionar a quem ouse deixar a imaginação à solta e não pense com as vísceras (e desde que não seja misógino, caso em que há-de dizer-lhe tanto quanto uma posta mirandesa a um vegan). Nem que seja apenas para aprender com histórias de prostitutas e sedutoras como Raab que a mulher é "o fio de seda vermelha que liga os frágeis homens aos deuses" (Livro de Josué, 1 - 6) ou como Dalila que "partilhar um segredo de outrém é também partilhar a sua morte" (Livro dos Juízes, 13 - 16). Ou para descobrir, nas lições das temíveis e rebeldes, que com Jezebel (I Reis, 16 - 21; II Reis, 9) se fica a compreender por que "gloria sic transit" tem tudo a ver com um detergente eficaz contra nódoas de insolência ou com Atalia (II Reis, 11; II Crónicas, 22 - 23) que "o corpo das mulheres [se] entrega ao amor como a um deus" em vez de sublimar a dimensão lúdica da vida infantil que é o sexo no adulto às voltas com o joystick de uma playstation. Ou com o telecomando de um televisor.

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junho 18, 2006

E se hoje não fosse domingo

havia de editar aqui um tímido petrarcazinho quási(pla)tónico em musa voz a fazer companhia à arrogância post(arist)otélica da caliopezinha de ontem.

Como este "Nem tenho paz nem como fazer guerra", traduzido pelo VGM lui même:

Nem tenho paz nem como fazer guerra,
espero e temo e a arder gelo me faço,
voo acima do céu e jazo em terra,
e nada agarro e todo o mundo abraço.

Tem-me em prisão quem ma não abre ou cerra,
nem por seu me retém nem solta o laço,
e não me mata Amor, nem me desferra,
nem me quer vivo ou fora de embaraço.

Vejo sem olhos, sem ter língua grito,
anseio por morrer, peço socorro,
amo outrem e a mim tenho um ódio atroz,

nutro-me em dor, rio a chorar aflito,
despraz-me por igual se vivo ou morro.
Neste estado, Senhora, estou por vós.

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junho 17, 2006

Máximas & mínimas

Sabemos inventar muitas mentiras parecidas com a verdade; mas sabemos também dizer o que é verdade, quando é esse o nosso desejo.

(Calíope, algures num velho livro francês. Tradução pessoal)

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junho 13, 2006

Mirror cage #1: The Goat Shadow


Langenlois - 06

People who get the calls are good. Not flashy, good. They get in, they get out, nobody knows a goddamn thing. You understand? Boom, boom, boom. Three in the head, you know they're dead.

Charlie, in "Nurse Betty" (2000), realização de Neil LaBute

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junho 12, 2006

Da (sic)vidência

Não fosse a transmissão televisiva dos casamentos de Stº António a devolver-me a fé na boa-fé da Humanidade, levando d'arraso o pessimismo dos aforismos de Goethe [Quando duas pessoas se sentem realmente felizes uma com a outra, de modo geral, cabe a suposição de que estão equivocadas.] ou de Kierkegaard [Quando duas pessoas se apaixonam e começam a achar que foram feitas uma para a outra, deveriam então romper, pois, seguindo em frente, têm tudo a perder e nada a ganhar.], e ainda acabava a ver o mundo resumido nesta ideia de Emerson: "Não temos grande culpa dos casamentos fracassados. Vivemos no meio de alucinações, e essa armadilha especial é preparada para nos apanhar pelos pés, e nela caímos todos, cedo ou tarde." ("Ilusões", in A Conduta da Vida). O que seria, manifestamente, uma pena. E um enorme desperdício floral e mediático.

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junho 10, 2006

Da pedagogia ou isso

Do que tenho lido em críticos a espectáculos musicais nos últimos tempos talvez comece a correr o risco de concluir o óbvio: para apreciar com honestidade é preciso o esforço prévio de comprar bilhete, 'arranjá-lo' corrói a tolerância e embota a sensibilidade. Talvez seja apenas isto. Ou talvez devamos ler todos, como bons leitores, este post do que considero o melhor - porque o mais sério e com quem, apesar de nem sempre concordar com ele, sempre aprendo - crítico português actual e que escreve aqui: João Lopes.

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junho 09, 2006

A casinha com jardim

Escutara-a, pela primeira vez ao vivo, quase excessivamente formal em Salzburg; era Agosto do Verão passado e a sua figura, envolvida em vermelho a lembrar uma Jessica Rabbit platinada, tinha como pano de fundo a belíssima parede de pedra da sala da escola equestre. Hoje havia um fundo quente de madeira e a esperança que o abrissem para o cenário vivo de água reflectida a verde que poucas salas de espectáculos no mundo poderão oferecer; na sua voz cheia, a cada dia mais madura e bela, agarrou uma selecção incomum de canções e agarrou-nos até ao silêncio. Ainda sou capaz de ouvi-la, a écharpe e as flores no chão junto aos sapatos que tirou para cantar um Dvorak zíngaro como gosta, a brincar connosco e com Gershwin em jeito de adeus. E às tantas até aceito, retocado o remetente, a sugestão com que, à capela, se/nos despediu: "Tonight, tonight, it all began tonight / I saw you and the world went away / [...] Goodnight, goodnight / sleep well and when you dream, / dream of me / tonight".

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Os doces de Araxá

(Ou os dias dos dias)

Nada passa, nada expira / O passado é / um rio que dorme / e a memória uma mentira / multiforme. // Dormem do rio as águas / e em meu regaço dormem os dias / dormem / dormem as mágoas / as agonias, / dormem. // Nada passa, nada expira / O passado é / um rio adormecido / parece morto, mal respira / acorda-o e saltará / num alarido.

"Acalanto para Um Rio" (Dora, A Cigarra). In Agualusa, J. E. (2004). O Vendedor de Passados. Lisboa: Dom Quixote. (p. 14)

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junho 08, 2006

Track down (*)

Vá...

... pelos seus dedos.

(*) aka "Takedown" (2000), realização de Joe Chappelle

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Máximas & mínimas

Quem não tem cão, muda a areia ao gato.

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junho 06, 2006

Das idiossincrasias dos (natural)ismos

O gosto pela comemoração de efemérides é um legado que os portugueses deixarão à Humanidade como prova de inexcedível capacidade de preocupação com o irrelevante: enquanto se ocupa o tempo a comemorar e se dizem meia dúzia de inconsequências voláteis e fúteis sempre se evita pensar. Ora, tem feito parte da história do melhor da nossa formação cívica e académica reconhecer a tarefa de pensar como trabalhosa e inútil, irrefutavelmente validada que tem sido esta conjectura pelo desenvolvimento dos cavalos de borracha e dos elefantes de papel a que a Srª Ministra da Educação e respectiva equipa têm dado a melhor atenção e discernimento de que, acredito piamente e até me benzo porque isto só pode ser um acto (não auto, acto e não é 'gaffe', asseguro) de fé, serão capazes.

Perante uma constatação deste teor em relação aos frutos do sistema educativo nacional, não só não me chocou a proposta de criação de um "Dia do Cão" como até a considerei digna do maior carinho e extensível, naturalmente por maioria de razão e imperativo ético-ecológico, ao asno lusitano (e, porque não desejo mal-entendidos, nem me vou deter em pormenores sobre se a raça actual é a que evoluiu da subespécie 'Equus asinus europeus', da 'Equus asinus taeniopus' ou da 'Equus asinus africanus').

Mas mesmo amante de efemérides de que não posso deixar de me prezar em nacional orgulho - e mais ainda das mundiais já que do futebol não consigo ir mais longe que saber o que a moça brasileira do cabeleireiro me conta da Merche Romero - não consegui encarar de frente esta comunicação que me chegou via fonte tão útil e indispensável quanto credível e insuspeita (como bem o sabem os verdadeiros profissionais inscritos nas várias) que é a Ordem: Comemoração do Dia Mundial da Desertificação - 17 de Junho. Desde quando, e por que carga-d'água, se há-de comemorar agora (comemorar, sim, é o que se diz no folheto, a infelizmência não é minha) o facto de em muito poucos anos termos o deserto como morada e não se espera até lá para o podermos fazer numa tenda, sentadinhos em coxins aveludados a saborear um chá de menta e tudo?

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Pera se fazer sesemta varas em veludo de pello mº (*)

~r sesenta e oito de tea
~r çento e vinte onças de trama
~r quinze liuras de pello
~r oito onças de seda verde

"Para se fazer sessenta varas de veludo de pelo miúdo". In Livro de Cozinha da Infanta D. Maria, Códice Português I. E. 33. da Biblioteca Nacional de Nápoles. (Prólogo, leitura, notas, glossário e índices de Giacinto Manuppella). Edição em fac-símile INCM, Lisboa, 1987. (p. 4/5)

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junho 05, 2006

Ponto de arroz

Há-de sempre comover-me a sensatez, a inocência e a compaixão à la carte das almas determinadas que, não dando ponto sem nó, alcançam a santidade (bem como a utilidade e o status, há que convir) de uma toalha de altar. É isso e quem, depois de lhes fornecer de boa fé todos os aviamentos, sabiamente gasta o que lhe resta do olhar no dedal inútil para evitar reparar nas linhas com que se coseu.

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junho 03, 2006

Dias de costura

Aquela argelina do Corot deixou-se olhar bem durante os 5 minutos canónicos, ficou então demonstrado que era uma mulher que valia a pena, mesmo sem ter um deserto por detrás a dar-lhe profundidade, e mesmo não sendo uma raridade; a prova colocada aos copos baços do Morandi envergonhado era mais difícil e ele acabou – com tristeza minha - por não aguentar tanta cor que pontilhava nas redondezas, como nem sequer conseguiu disfarçar uma incerteza de contornos menos felizes. Fizeste-me ver que tinha passado ao lado do Fragonard porque não era uma bela rapariga que lá estava naquela sua típica pose serpenteada, e eu, rindo do insólito apanhado, viciado em olhar de saltimbanco, esqueci-me de te provocar ao de leve dizendo que não gostas das paisagens do Ruysdael porque tens medo que o bucolismo te arredonde o gume do bisturi; também será por isso que passas pelo Greuze com o desdém quase olímpico de quem traz pinacotecas na memória, com a mesma naturalidade de quem faz receitas de cheesecake, ou mapas de genes, ou deambulas por encenações de óperas que te marcam desde a parede do estômago até ao estremecer da espinha; ainda estou a pensar naquele teu encanto inesperado pela modernidade sombria do El Greco, como se fosse um Cézanne da alma, no teu comentário matreiro sobre a velhice de Degas, no olhar superior que lançavas ao impressionismo monocórdico de Monet, mas a minha pena maior foi que não tivesses perdido mais tempo comigo naquele pré hooperiano cenário de Bellotto, já cansado da influência do tio Canaletto, mas ainda sem ter experimentado os singulares destroços de Dresden; não era tão banalmente paisagístico como se calhar supuseste, pelo vício de já tantos teres visto, nem era um mero jogo flamengado de luz, pormenor e sombra, era um campo com alma, sem sangue mas com alma, e com uma torre que fazia daqueles homens ao mesmo tempo insignificantes e donos da perspectiva e do sentimento, e que me fez lembrar que um entardecer e um amanhecer podem estar unidos por um luar. Como o tempo se ganha sempre que o soubermos guardar naquele recôndito, precioso e pulsante lugar.© a.

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junho 01, 2006

Die Liebling Sünden

"Alles was ist, endet."

Erda, num Das Rheingold inesquecível ali mesmo à esquina. Bem vistas as coisas o melhor do fim é permitir o início.

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Reversed eccentricity


Melk - May 06

"We would never be sure of the sequence of events. We argue about it still."

Narrador in "The Virgin Suicides" (1999), realização de Sofia Coppola

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