Estava-se em Agosto de 1876 e à estreia da obra completa de Wagner, Der Ring des Nibelungen - O Anel dos Niebelungos-, escrevia-se no Figaro: "Não é uma obra teatral; é literalmente uma alucinação completa, o sonho de um lunático, que pensa impôr ao mundo a mais extraordinária espécie de arte".
Datando a primeira referência documental à obra de Abril de 1848, com o esboço de 'Siegfrieds Tod', é fácil constatar o longo período da sua génese, rico em vicissitudes de entre as quais as menores nem seriam as sucessivas alterações que o autor sentiu necessidade de fazer (começou por ser uma trilogia iniciada pelo último poema e só mais tarde a musicou na sequência final) ou sequer a incompreensão gerada pelo facto de não haver, nos flamejantes mas frequentemente diminutos teatros da época, palcos capazes de a abrigar.
Reduzido aos seus elementos básicos, o libreto mais não é que uma simulação épico-folclórica sobre o início e o fim do mundo e uma parábola sobre as consequências da ganância, recriado à dimensão final por um visionário e musicado ao arrepio de tudo quanto o senso da época pudesse sugerir. Mas não a Wagner que, felizmente para todos nós imagino (a partir das verdadeiras "pérolas" que os relatos dos seus contemporâneos fizeram chegar até nós) incapaz de conceptualizar 'bom senso', escrevia os seus próprios libretos baseando-se com frequência nos mitos e contos populares norte-europeus e em particular nas lendas germânicas e nas sagas islandesas: as antigas 'Eddas' e 'O gato-das-botas' no Ouro do Reno, a saga 'Volsunga' nas Valquírias e no Siegfried em que há ainda traços da saga Thidreks e dos contos dos irmãos Grimm como A Bela Adormecida, tudo indicando derivar o Crepúsculo dos Deuses directamente do poema alemão do século XII conhecido como 'Nibelungenlied'.
A tessitura de fontes tão díspares (dizia Wagner que 'o mito é o poema primitivo e anónimo do povo', que no mito 'as relações humanas se despojam quase completamente da sua forma convencional [...] e mostram o que a vida tem de verdadeiramente, de eternamente, compreensível') num todo coerente (em que, no entanto, são bem visíveis em personagens como Wotan os remendos que o desfasamento na sua elaboração não poderia deixar de mostrar) fá-la Wagner à custa da injecção de temas que atravessam transversal e recorrentemente a obra: o abuso de poder, a imutabilidade do destino, a necessidade de expiação e redenção e o estatuto do amor como o 'sábio e verdadeiro redentor final', afinal todos os ingredientes e em doses q.b. para fazer passar a mensagem do ideal romântico - com I maiúsculo, claro - de uma pureza incomparável em que paixão e acção se fundem até à morte salvadora (o que no caso presente, ao ser evitado em grande escala, nos poupa a uma hecatombe final de deuses, semi-deuses, anões e gigantes, etc etc apesar de, ainda assim, a mortalidade não ser despicienda e, bem vistas as coisas, poder deixar de rastos as estatísticas do Valhalla).
Não sendo uma ópera popular (dificilmente, fosse em que tempo fosse, uma obra que dura entre 15 a 16 horas o seria), é seguramente um nome familiar mesmo a quem por completo ignore do que se trata e a prova disso mesmo é poder escutar-se recorrentemente, como toque em telemóveis por aqui e por ali, a famosa 'Cavalgada das Valquírias', usada por Coppola como tema de fundo em alguns dos mais sanguinários momentos do seu filme 'Apocalypse Now'.
Do ponto de vista musical, 'O Anel dos Niebelungos' é uma obra esmagadora, com uma variedade e expressividade dificilmente comparáveis na história da música e na qual há tanto de introspecção quanto de bombástico (aquilo por que é mais conhecida logo a par das mulheres grandes e dos homens violentos, diga-se). Cerca de duzentos temas melódicos e harmónicos, a maioria dos quais derivados do simples padrão que abre 'O Ouro do Reno', unem e dirigem cada acontecimento, carácter ou emoção em constante mutação através do contacto mútuo de modo que todas as formas são constantemente reinventadas por meio de um estilo de composição desenvolvido por Wagner e envolvendo, entre outras peculiaridades, paridade entre a orquestra (talvez mesmo protagonismo) e os cantores até ao limite da exploração da expressão emocional.
Da renúncia ao amor em troca do poder (O Ouro do Reno) até à salvífica redenção pelo amor após o fracasso do poder (O Crepúsculo dos Deuses) escreve-se, como se tecesse a corda da vida a cargo das filhas de Erda, toda uma história do homem à semelhança do que fizeram outros mestres (resta-me esperar que Graham Vick, o encenador de quem já vi uma belíssima Manon Lescaut digna do melhor teatro Nô e um modernaço Werther ao melhor tom hopperiano, não me desiluda). Por mim, fico-me para já pelos dois momentos musicais que acima de todos prefiro nesta obra: a subida dos deuses pelo arco-íris até ao Valhalla (O Ouro do Reno) e a ária final de Brunhilde (O Crepúsculo dos Deuses). E porque será sempre a inteligência fria de Loge muito mais que a acção apaixonada de Siegfried a cativar-me, fica também a sugestão para uma passagem pelo Alberich que, mais ou menos desenvolvido, todos temos dentro de nós (porque todo o homem tem um preço e o que é bom é não se fazer ideia do seu montante) e que tão bem é retratado em dois magníficos posts do Portugal dos Pequeninos.
Referências:
Boyden, M. (2002). Opera. London: RG.
Lavignac, A. (1980). Le voyage artistique à Bayreuth. Paris : Stock.
Parte-se de um olhar.
Parte-se com o olhar.
Adenda: em breve mais, num Retorta perto de si.
No início de Maio de 2003, ao regressar de mais uma das vagabundagens por aí de que tanto da minha vida se faz, descobri o mundo da 'blogaria' através de uma sugestão de leitura do Mário Filipe Pires. Em quase nada se parecem os blogs de hoje com os dessa época mas sobre a sua evolução (ou involução) já há cerca de dois anos escrevi o que hoje voltaria a escrever. Porque tanta coisa mudou entretanto e, ao invés desse outro tempo de ingenuidade, tão pouco me apetece actualmente despediçar palavras, aqui ficam públicas apenas as que no dia em que o Azul Cobalto faz três anos de existência são imprescindíveis e trasmissíveis apesar de pessoais: obrigada, Mário. Por tudo, sempre.

Melk - May 06
"I always thought the joy of reading a book is not knowing what happens next."
Leonard Shelby, in "Memento" (2000), realização de Christopher Nolan
Deus já calculava que o homem iria inventar o chapéu de chuva, o avião, a gabardina e o sabão. Anteviu que a nossa imaginação ainda nos levaria até aos cavalos alados, à figuração de anjos louros e anafados, a valorizar Olimpos mitificados, a deuses guerreiros e a verdades encontradas em salões de cabeleireiros. Deus sabia que as crianças se iriam rir com o algodão doce, que nos enfunaríamos numa qualquer etérea pose, que as avós fariam farófias beijadas lentamente e que os fotógrafos se perderiam com os sóis a poente. Pensou em ninhos para os pássaros, em bancos para os avaros, em tocas para os coelhos e em penthouses onde mulheres iniciariam fedelhos. Sabemos hoje pelos poetas que Deus nunca sonhou, que desenhou os joelhos das mulheres para que outros os acariciassem, e que semeou o desejo no homem deixando para a chuva da sedução o resto do serviço; mas sabemos hoje pelos pintores que a cor não existe, que pode haver bom sexo sem nada estar em riste, que só há amor quando a dor persiste, que um sorriso é um lar e que no céu há um azul que fica mais triste se nenhuma nuvem o decorar.
Oferece-me então uma nuvem, pode ser um cirro ou um cúmulo, e eu sairei do meu casulo, voarei até lá, e aí farei um secreto recanto onde todas as esquinas serão tuas, e desenharei cornijas com meias luas, esperando pelo canto duma sereia que troque a sacana da barbatana por uma língua de fogo lento, ou por uma saia que se deixe arrebatar pelo vento.
Deus já calculava que o homem iria descobrir o estúpido do avião, que faria do inconsciente um vilão e da moral um sabão, previu que a chuva lavaria, que a memória atacaria, mas sempre em surdina, e por isso deixou-nos o esquecimento como gabardina, rodeada por irónicos desejos, por anjos da guarda e por beijos, e por nuvens: para sonhar e para poder viver sempre a rezar.© a.

München - May 06
"Life, every now and then, behaves as though it had seen too many bad movies, when everything fits too well - the beginning, the middle, the end - from fade-in to fade-out."
In "The Barefoot Contessa" (1954), realização de Joseph L. Mankiewicz