março 30, 2006

Politex 111

(Ou "Elementos de política económica para esposas")

Be plain in dress, and sober in your diet;
In short, my deary, kiss me, and be quiet.

Lady Mary Wortley Montagu (1689–1762). 'A Summary of Lord Lyttelton’s Advice.' Fonte: www.bartleby.com

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março 29, 2006

Circularidadezinhas


Btlv - Mar 06

® Kenneth Snelson: escultura da série "Model of an Atom Patent 2". Exposição temporária, Múzeum Milana Dobeša, Bratislava

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"My God, who wouldn't want a wife?"

I belong to that classification of people known as wives. I am A Wife.

And, not altogether incidentally, I am a mother. Not too long ago a male friend of mine appeared on the scene fresh from a recent divorce. He had one child, who is, of course, with his ex-wife. He is looking for another wife. As I thought about him while I was ironing one evening, it suddenly occurred to me that I too, would like to have a wife. Why do I want a wife?

O resto? Ah, aqui: 'Why I Want a Wife', por Judy Syfers (1971).

Para a T., a propósito de reflexões sobre o possível interesse erótico do Mr. Stillingfleet blogosférico português e na esperança que encontre relação entre galão e caldeirada (brejeirice à parte, claro, que somos pessoas sérias) porque 'é assim que vejo as coisas'. Agora em português.

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março 28, 2006

Carta marcada duma dama de copas a um terno de paus

Lamento desapontá-lo mas apenas o suporto na medida do prazer que acrescente ao meu destrunfe, e porque há dias em que não me apetece servir para paciências. Limite-se a assistir quando for trunfo, mas sempre respeitando o seu lugar atrás dos naipes mais fortes. Não pense que nalgum momento poderá sequer fazer uma pequena sequência comigo, o máximo que lhe concederei será acompanhar-me em silêncio no meu poker deslumbrante. Dias melhores lhe poderão vir se estiver consciente da sua irrelevante posição. Nada pior para um terno de paus pensar que alguma vez poderá cobrir a parada dum competente valete de copas. Dou-lhe pois uns dias de liberdade para poder ir arejar o orgulho fátuo para outro baralho; mas lembre-se do que lhe é próprio: voltar submisso para me segurar o manto nas vazas caprichosas. Sempre terno, e cuidando de nunca fazer a figura das famosas senas tristes.© a.

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Máximas & mínimas

"Everyone has one idea of freedom that allows no one else to have another".

Legenda integrante de uma obra de Muntean & Rosenblum na exposição "Kunst fürs 20er Haus", Österreichische Galerie Belvedere (Viena)

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março 27, 2006

'what you see...


Brtlv - 26 Mar 06

... is what you won't get'

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março 26, 2006

Piu piu & cia

(A lembrar-me de um ditado popular sobre o nicho ecológico de algumas espécies de dípteros)

Não é blog, é blague.

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março 25, 2006

Manual de escrita recreativa

Pega-se nuns lápis de pontas bem afiadas
e fazem-se duas cornucópias com um lacinho,
que, em saindo devidamente torneadas
é sinal que estamos no bom caminho;
se não borrarmos a folha nos cantos
podemos arriscar num ‘quanto muito’
a fazer as vezes duns ‘se tantos’,
credo, logo um erro destes e não fortuito,
é então o clássico momento do dedo no nariz
bem decorado com um olhar combalido:
«mas que mal é que eu fiz,
sim, eu que sou tão querido»

Não se deixem enganar, dispensem sermões
e confiem cegamente em mim,
para escrever de rabo a abanar, em nove lições,
há que fazê-lo tal qual assim:

1.
Insultar devidamente mas sem ferir em excesso,
pôr a palavra atrevida e sorrateira debaixo da saia,
exacerbando as borbulhas chamando-lhes abcesso,
mais jamais confundir a Cassandra com a astróloga Maia

2.
Depois há que saber de cor o nome dos hereges
papaguear em bom ritmo as tribos de Israel,
gozar com os sofás em tons beges
e escrever sem medo nas bordas do papel

3.
Ai bordas! mas que palavra tão feia,
alembra-me logo aquelas coisas de roçar,
não fora o Adão ter um bom pé-de-meia
q'andaríamos todos de mãos a abanar

4.
Por esta altura já a ponta do lápis arredondou,
é o momento certo de treinar o sombreado,
de se arrastar insinuantemente a asa com cuidado
e de fazer supônhamos com as cartas do Tarot

5.
É também de elementar bom senso
troçar devidamente das seitas protestantes;
eu para já digo-vos o que penso:
estão para a fé como o chouriço está prá’sandes

6.
Jamais respeitar o decadente verbo haver,
trocar os hás com os às, sem esquecer os ahs
e depois as sintaxpecialistas, hadem ver,
ficam com aquelas caras de bruxas más

7.
E quando chegar a tentação dos 'estilhaços doridos'
com o ingrato coração a querer 'rabiar-nos' a fantasia
é o ponto de treinar uns símbolos obscenos e floridos
mas reparados com a correspondente ave-maria

8.
E depois, quando o paleio saturar o ar
e as palavras começarem a saber a palha
tomemos dois ‘Pankreoflat’ e um ‘Duspatal Retard’
pois não há Santa Métrica que nos valha

9.
Aintão, finalmente, já com o lápes feito côto
e com as entranhas mei’ farinhadas,
fasei, 'quando muito', um olhar piedozo e devôto
dirijido hàs prontuárias diplumadas
© a.

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março 21, 2006

'There's always gonna be a rainbow' (*)


Klkn - Mar 06

So long, Winter.

Nota: o diâmetro médio real do cascalho rolado visível é aproximadamente 1 cm.

(*) "Rainy Day Song", in On the Way to the Sky, Neil Diamond (1981)

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Bolsa de valores #5

Nesta casa valiosa, e agora ainda mais bonita, habita uma mulher que pensa e que há muito leio com especial prazer.

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março 19, 2006

"this isn't real life"

"Em justas proporções / A beleza se ajeita / E só num ritmo breve / É que a vida é perfeita." - Ben Johnson

Teimosa, a afirmação de Nietzsche a um amigo (cito de cor) "há muito aprendi ser mais fácil viver com uma má reputação do que com uma má consciência" vinha-me à memória no decurso do mais recente filme de Cronenberg estreado entre nós e cuja tag se resume à evidência "everybody has something to hide". Mais não sendo que mera expressão do óbvio - e por conseguinte do que é próprio da vida-, deixará prever para uns uma volta nos carrinhos-de-choque amolgados do passado, a que nenhum retoque de spray da loja-do-chinês da desresponsabilização-sob-pretexto conseguirá dar solução genuína, enquanto para outros ficará o pesadelo da limpeza dos efeitos de um carnavalesco baile de esqueletos, vindos da arrecadação, no salão principal das três ou quatro assoalhadas que, a custo de muito empenho e esmero na escolha dos 'bibelots' que lhes pareçam mais adequados ou mais fashion - fazer pendant com o exemplo da mamã, animais de estimação ou tapetes de Arraiolos é opcional-, compõem a sub-vidinha de quem ainda não aprendeu que a crueldade é o inverso da sabedoria e que, se a memória pode ser ficção reinventável, o passado não. E para que não faltem a citaçãozinha nem o name-dropping que permitirão a este post, excessivamente longo como as feiras de tasquinhas de vaidades que os portugueses tanto apreciam e insuficientemente críptico para parecer ter conteúdo, ser um post, pego em palavras de Julio Cortázar a propósito do Dom Quijote de Cervantes e, citando novamente de cor, faço-as tag alternativa às histórias de violência: "Quando os deuses abandonam o homem, para sobreviver é preciso chamar-se Ninguém". O que, bem vistas as coisas, nada tem de original, já Garrett o fizera dizer ao Romeiro no "Frei Luís de Sousa", em português de lei.

Publicado por m. em 05:13 PM | Comentários (0)

Carta de amor dum joker amargurado por nunca ser trunfo

Tenho pena que não me escrevas, que não me estejas sempre a escrever, sempre, envolta na ingrata monotonia dos sempres, escrevendo para mim, num gerúndio de escrita, que não passes a vida a procurar palavras para me dizer o que sentes, queria que só sofresses por te faltarem palavras para me dedicares, queria ver-te arrastando silabas à espera dum significado luminoso e inesperado, entusiasmo-me na esperança que estejas agora a imaginar metáforas, a arrancar rimas a ferros, a subir sem medo por hipérboles arriscadas, a conjugar versos impossíveis de conjugar sem nós dois, sonho-te a enrolar nos adjectivos que me queres oferecer, sonho-te a desprezar pronomes porque te sabes sujeito sempre presente ao lado dos predicados que inventei para ti. Quero-te prontuariamente, quero-te com todas as declinações em simultâneo, vivo só do que me escreves, genitiva, ablativa, docemente acusativa como um punhal que me criva, mas contento-me em ser teu prefácio, ou em ser apenas uma estrofe de passagem, mas preciso de saber que faço parte dos teus sonetos, que tenho um cantinho reservado na tua métrica, que nunca fugirás definitivamente para o verso livre sem me deixares um dia ter-te no meu colo adormecendo ao som da minha mão a passear-se nos teus lábios, enquanto sussurram palavras tão absurdamente proibidas quando desleixadamente envergonhadas.© a.

Publicado por m. em 11:04 AM | Comentários (0)

março 17, 2006

(efemer)idades


Klkn - Mar 06

Por ser o dia de St Patrick. E o teu.

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março 16, 2006

Da incredulidade

(Por um cavaliere)


Ostia - 05

Publicado por m. em 05:55 PM | Comentários (0)

Piu piu & cia

A blogosfera contribui, de forma exemplar, para a validação das teorias pavlovianas. Ainda que a campainha toque por acaso.

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março 15, 2006

Oxímoros apócrifos a la tripe

( adaptação livre da receita da Mª de Lurdes Modesto, ed Verbo, 1978, pg 121, mas sem utilização da vitrocerâmica)

Pegue nuns conceitos bem amanhados mas sem nexo nenhum, corte-os às rodelas, e leve-os a cozer na margarina da displicência, com a realidade muito branda e a imaginação devidamente tapada. Quando a confusão ficar translúcida polvilhe com ambiguidade, envolva e deixe cozer sem ganhar paradoxo.
Regue com ironia fria, mexa de modo a espalhar tudo homogeneamente e tempere com algum picante e pirronice moída.
Deixe cozer em caldo de óbvios durante alguns parágrafos. Adicione as perplexidades da ordem e o sumo das irritações de estimação e finalmente introduza a contradição explícita em rodelas grossas.
© a.

Publicado por m. em 10:55 PM | Comentários (0)

Secos & molhados

Porque nunca se sabe quando lhe fará falta:

rreeçeita pera squinëcia

Tomaräo canela q~ seja mujto boa e noz moscada,
de cada coussa dessas mea omça e de gengi-
vre hüa quarta de omça de allua de cães que
seja muijo allua e sequa hüa oitaua de onça
e quatro ou çinquo crauos girofes, hüa omça
de açucar rrefinado tudo ha de ser mujto moido
e peneirado e mujto mesturado hüu cö ho outro
e ao que tiuer a esquinëçia tomaräo quätos
poos destes posäo tomar com tres dedos
e deitarlhosam no gorgomilo quä abai-
xo puderem e apos elles hüu bocado dagoa
ffria e desta maneira lhos daräo tres
vezes hüa apos outra e deitarlhosham
tres ou quatro dias a ffio se nos primeiros
tres dias nö fficar livre. /

Livro de Cozinha da Infanta D. Maria (Códice Português I. E. 33. da Biblioteca Nacional de Nápoles). Prólogo, Leitura e Notas de Giacinto Manupella, 1987. Lisboa: INCM. (p. 146)

Nota: 'squinëcia' ou 'esquinëçia' é a designação antiga, actualmente obsoleta, da angina tonsilar ou amigdalite. Etimologicamente resulta do cruzamento das palavras gregas que significam 'tosse canina' (por sua vez cruzamento das palavras sufocar, estrangular, com cão) e angina (no sentido corrente de tumefacção inflamatória da garganta), através do latim médico cynanche. Os estudos sobre a disseminação europeia do termo vão no sentido da sua difusão pelo léxico médico e não pela via popular.

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março 13, 2006

Apocryphal disclosure

(ou "melhor que um oxímoro só uma vitrocerâmica")

A clarividência é prerrogativa de uma entroncada alminha de Adão encerrada num fragilzinho corpanzil de Eva.

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março 12, 2006

Bolsa de valores #4

Apesar do atraso nunca será demais prevenir:

"Public Service Announcement"
Por hipocondríaco [Mar 2005]

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"Endgame"


Kln Mar 06

Clov: [...] Finished, it's finished, nearly finished, it must be nearly finished. [...] Grain upon grain, one by one, and one day, suddenly, there's a heap, a little heap, the impossible heap. [...] I can't be punished any more. [....] I'll go now to my kitchen, ten feet by ten feet by ten feet, and wait for him to whistle me.

Beckett, S. (2000). Endgame. London: Faber & Faber. (p. 12)

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Apocryphal speaks #3

Tenho saudades de fotografar por encomenda. Estou farta de fazer o que quero e queria obedecer. Viver que nem carreirinha do tricot, nem precisando de saber quem sou. Isto é mentira, evidentemente, mas para se falar verdade primeiro temos de ensaiar uma aldrabice tipo beliscadela. Mas que é certinho que nem a seta que rachou a maçã na cabeça do catraio do Guilherme Tell, é que a mim ninguém me engana a não ser que eu me queira deixar enganar. Menti outra vez. Sou uma especialista em ludibriar sentimentos nostálgicos. Vem-me esta experiência da bancada do laboratório: quando se ataca com o bisturi já não se pode voltar atrás, podemos quando muito fazer um balanço na fase do microscópio e pouco mais. Poderia agora citar a Emily Dickinson, mas de citar é que não gosto mesmo de fazer por encomenda, fico com a boca a saber a papel, tal como quando me treslêem; quase pareço um homem, assim tão sensível, mas que posso fazer. É por isso que uns dias me dá para a escrita de penumbra, noutros para a de obscuridade, e intercalo com umas bóias à beira mar, atravessadas por diálogos mais ou menos cinematográficos retidos entre tímpanos amestrados e especialmente treinados para o charadismo intelectual. Mas a grande verdade é que a vitrocerâmica me faz uma falta danada, preenche-me aquele sonho do calor sem chama, e por isso agora só me apetece olhar para o mundo com aquele half-smile de Nefertiti , deixando que o faraó pensasse que ela era o seu lado feminino. Nem mais nem menos. Afinal o mais belo sorriso é o comiserativo. Podem encomendar. © a.

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março 11, 2006

Apocryphal speaks #2

Hoje a minha amiga Cassandra ligou-me. Estava bem disposta. Disse-me que tinha estado na conversa com o Tirésias e tinha descoberto o fabuloso destino do feminino. Começou por me informar que esta minha combinação de tartes de maçã com o Popper só me podia fazer bem aos nervos e à pele. Estranhei de início, mas isso deve ser daquele fenómeno das associações do inconsciente; felizmente que o mais parecido com um divã em que me tenha deitado foi uma cama de água. Talvez até venha daí uma das saídas de Cassandra: «Tu recalcas ondulantemente, e sublimas aos pingos». Cheguei a temer – com arrepio incluído - uma aproximação ao conceito de pinga-amor, mas aparentemente a Cassandra não estava para aí virada; «o feminino em ti vive-se como um adereço, uma táctica» foi ela logo directa ao assunto, provocando-me, preparando as couvettes onde eu me pudesse encaixar melhor. Olha passa-me é o Tirésias, apeteceu-me logo dizer, mas fiquei pensativa, lembrei-me da Madonna a puxar as calças para cima enquanto caminhava para se sentar ao pé da bandeira americana - que raiva não saber porque penso no que penso - e ‘adereço’ compro, mas ‘táctica’ fernicoca-me ( valha-me Stª Léxica). Felizmente descobri há muito tempo que isso do feminino não dá direito ao estatuto de condição; apesar de cheirar a trocadilho-a-pedir-soutien-queimado: somos mulheres incondicionalmente; no fundo só o masculino reflecte um estado, eu cá sinto-me sempre maternalmente, ou seja: serei eternamente centro de acolhimento. Cassandra nesse momento já desconfiava das suas capacidades, nenhuma profecia suporta o peso de uma alma construída à base de ideias fixas enxertadas em lábios mordidos; a chamada terminou, mas não sem que antes o Tirésias se tivesse intrometido com as buchas da ordem: «eu cá quando fui mulher do que gostei mais foi de pintar as unhas». Agora descortino o enigma: o destino do feminino é aproveitar o arco-íris que os homens temem porque para além de serem incapazes de conjugar o sol com a chuva, gostam de o tapar com a peneira, ou com as peneiras. Toilettes aparte. © a.

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março 10, 2006

Apocryphal speaks #1

Dizem-me que por vezes tenho escrita de homem, que tenho de me distanciar dos assuntos para que eles não me excitem para lá da decência. Se bem que seja daquelas que apenas vê diferença entre os homens e as mulheres pelo tempo que passam no cabeleireiro e pelo feitio da cintura, a minha condição de bióloga atraiçoa-me frequentemente nessa vertigem que é a descoberta da fuga aos padrões. Anoto como eles guiam, como eles bricolam, como eles se riem, como eles gerem as pausas; têm a rainha das virtudes que é a previsibilidade, e o seu escudeiro mais fiel é a cobardia. A mulher que cá canta, saída daquela costela mais elipticamente arredondada de Adão, permite-me generalizar sem precisar de grandes amostras, compro o mundo ao preço dum pormenor e revendo-o a quem quiser pelo preço justo dum sofisma bem disfarçado pelo batôn da tagarelice, essa um terço deusa, um terço feiticeira, um terço anestésico. Neste momento estou incomodamente dentro de mim, o que me causa a desagradável sensação de sinceridade que nenhuma mulher consegue suportar por muito tempo. Vou ter de vos deixar por agora, preciso de fazer uns doces e tratar do androceu que me rodeia que nem um istmo de fecundidade ligado ao continente apenas pela lei da sobrevivência uterina. © a.

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março 09, 2006

Serenade geographique

Est-ce pour la lune / est-ce pour le soleil / que les agrumes / ont dit pareil?

Tu te rappelles "qu'on rayonne, qu'on se jette hors de soi de tous côtés, ou seulement en ligne droite; et loin de ses immobiles fémurs et de son immobile cage thoracique et de sa chambre à coucher immobile, on fait les plus longs voyages"? Je te l'ai dit souvent, dans cet été-là, et aujourd'hui je te le redis avec les mots de ton ami: "c'est l'âme qui s'en va, seule, vite."

Em itálico, excertos de Michaux, H. (2000). "Évasion", in "Qui je fus", "III. Partages de l'homme". Paris: Gallimard.

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março 08, 2006

Não se vê na tv

"Radix omnium malorum cupiditas." (*)

Mais sobre o polimorfismo da filargíria em S. Tomás de Aquino, 2.-2, causis peccati.

Nem nos «débeis intelectuais» que escrevem sobre auto-ajuda:

"Numquam se plus agere quam nihil cum ageret, numquam minus solum essequam cum solus esset." (**)

Mais sobre a necessidade do exercício da capacidade de pensar em todas as pessoas sãs, independentemente da sua erudição ou ignorância, inteligência ou estupidez, em Hannah Arendt (***).

E já que hoje, por ser o dia da Mulher seja lá o que isso signifique, hesitei entre efabular sobre as novelas do Canal 2, conversar sobre o poder aromatizador do cardamomo no arroz branco ou debruçar-me sobre a ausência de pensamento na génese da iniquidade, é só mais este bocadinho de hetero-ajuda, completamente livre de taxas audiovisuais, via Platão para atalhar:

"Cada um de nós é como um homem que vê coisas em
sonhos e pensa que as conhece
perfeitamente e então acorda para descobrir
que não conhece nada."

(*) Livro dos Provérbios ("Venerabilis Bedae Presbyteri Proverbiorum Liber"). Existe edição online.

(**) Catão, segundo Cícero ("Republica", I, 17)

(***) "The Life of The Mind (I)", Harcourt Brace & Company, 1977.

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março 07, 2006

Secos & molhados

Pera quoartos de marmelos /.

+ tomaräo mujto böos marmelos e bicudos
e cöprjdos e lisos e grandes babaros
se qujserë e falosäo ë quartos e apara-
losäo oitauados / E teräo hü tacho
dagoa feruendo e como apararë
ho quoarto asy o deitaräo dentro
e como feruer hüa feruura mujto pe-
quena trialosäo e läcaloshäo ë agoa
ffria e tralosäo dous dias ë agoas
ffrjas e mudarlheäo cada dia tres a-
goas frjas e cada dia lhe darä hüa
fferuura pequena e a deradejra ha
de ser de ffeicä q~ ffiquë bë cozi-
dos q~ pase o alfinete por eles como /
por masa e polosäo ë sua vasilha
e deitar-lheäo outra agoa quëte e
depois de mujto bë escorjdo lamcar-
lheaö a cöserua q~ faca fio e sera
morna e ädara qujze dias ë se fazer
e no dito dia lhe daräo hüa feruura
aos mesmos marmelos e deitarlheam
agua de ffrol ./.

Livro de Cozinha da Infanta D. Maria (Códice Português I. E. 33. da Biblioteca Nacional de Nápoles). Prólogo, Leitura e Notas de Giacinto Manupella, 1987. Lisboa: INCM. (p. 122)

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março 06, 2006

Bolsa de valores #3

"Foram-se os anéis"
Por J. Nunes [2005]

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março 05, 2006

"Arsenic and old lace" (*)


Portela, Lx

Mortimer Brewster [ao telefone]: Hello... Operator? Can you hear my voice? You can? Are you sure? [desligando] Well, then I must be here.

(*) Realização de Frank Capra, 1944

Publicado por m. em 06:00 PM | Comentários (0)

março 04, 2006

look smart ®

2 Aug. 1977

"Dear Philip: The smaller cat has been eating paper again..."

Excerto da correspondência entre Philip Larkin e Patricia Murphy in The Philip Larkin Letters (1952-1977), McFarlin Library - University of Tulsa.

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A bridge too far (*)


Koprivstitsa 01

B G Gavin: What's the best way to take a bridge?
M J. Cook: Both ends at once.

(*) Realização de Richard Attenborough, 1977

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março 02, 2006

Nocturno


Zgb 06

Corro atrás da sombra que me deixaste.
Apanho, no seu rasto, os teus segredos de neblina.

Júdice, N. (2005). Geometria Variável. Lisboa: Dom Quixote.

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março 01, 2006

a-e-i-o-u

No essencial de acordo quanto à mais-valia da criatividade, vêm-me à ideia as vozes riscadas, cheias do vibrato a que os puristas chamam 'sujo', dos negros no jazz e as baldas à sintaxe e à ortografia que ornam um dos blogs mais criativos e versáteis da lusa 'blogaria' (vénia, sr doutor). Mas como hesito muito entre o Cy Twombly e o Alechinsky, confesso que já não era sem tempo que aguardava o melhor contributo da prodigiosa imaginação do Boccaccio, perdão do António, para a causa das mulheres desvalidas e necessitadas de uma 'mão amiga' (abomino esta expressão) na difícil condução pela hermética e quase virgem selva masculina como o é esta versão, em papel couché e devidamente brochada, do seu Decameron, perdão Decálogo, com o inevitável toque de misoginia, aliás de Midas.

Publicado por m. em 11:55 AM | Comentários (0)