julho 30, 2005

Pálpebras descaídas, ovários em riste, hormonas ao léu.

«Tolstoi dotou a sua heroína com (…) os «tesouros de compaixão» e condenou a sociedade que a perseguiu até aniquilá-la. Mas ao mesmo tempo invocou os inexoráveis direitos da lei moral. (…)
Muito de Ana Karenina está concentrado neste momento: o choque entre monogamia e liberdade sexual, as contradições entre as ideias pessoais e a conduta pessoal, a intenção, ao início, de interpretar filosoficamente a experiência, e depois a semelhança de Cristo.» (*)
Apesar de às luzes do nosso século se possa olhar para Ana e ver ‘uma mulher parva’ que se deixou levar por uma paixão que apenas se «poderia realizar poeticamente», a tensão condição-moral poucas vezes atingiu uma intensidade e amplitude tão grande como em ‘Ana Karenina’. G. Steiner faz igualmente notar de forma interessante (distinguindo-o assim de Flaubert em ‘Mme Bovary’) a omnipresença do narrador mesmo que seja com os olhos das diversas «personagens que são indivisíveis das cenas». Até aqui nisto fazendo lembrar a nossa condição: Deus também nos olha com os olhos dos outros e não conseguimos fugir a essa prisão que é termos sempre um juízo no ar. Nem Cristo, ‘perfeito homem’, conseguiu, e deixou-nos como desafio malandro esse de «interpretar filosoficamente a existência».
«Durante a mazurca Ana olha para Kitty com as pálpebras caídas. É um mínimo detalhe que concentra, com grande precisão, o sentido da astúcia de Ana e a sua crueldade potencial». A. K. também revela que só a paixão amorosa feminina consegue compactar a verdadeira crueldade, o resto é cinismo ou ironia, primos literários muito afastados. Deus devia estar fora deste filme, mas não estou a ver como é que isso se faz. O Tolstoy steineriano dá uma ajuda quando se assume como ‘anti-platónico’ e se põe a responder à questão: «Qual é a essência da doutrina de Cristo? Ensina aos homens a não cometer estupidezes. Todo o empirismo brutal e toda a impaciência aristocrática de Tolstoy ressoam nesta extraordinária resposta». (**). Afinal os olhos do nosso século ainda têm alguma clarividência: há mulheres que são umas parvas, cruéis e parvas; mas V. Nabokov nas suas ‘Lectures’ adiantar-se-ia a decifrar melhor a ideia de Tolstoy: «Ana foi punida porque a sua aliança com Vronski só estava fundada sobre o amor carnal, e aí estava a sua infelicidade». (***) Platão se tivesse lido este livro ainda andaria agora às voltas no Banquete à procura dum terceiro amor. Que existe, claro.
© a.

(*) In ‘Tolstoy and Dostoievsky’ de George Steiner, tradução espanhola na ed Siruela, pag. 68 e 70
(**) idem, pags 259, 260
(***) in ‘Lectures on Russian Literature’ de Vladimir Vabokov, tradução francesa pela ed. Fayard, pag 214

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julho 29, 2005

Agora toda a gente tem dicionários. Também quero.

Aqui veremos o país reflectido por quem se fala e porque quem faz realmente a diferença. Falarei na primeira, na segunda e na terceira pessoa, houvesse quarta e também marchava, salvo seja, não sou pois de intrigas narrativas, aqui todos têm lugar à palavra. É como numa sociedade tributária: todos tendemos para sujeito passivo, e todos temos direito a que nos dêem o devido desconto; à colecta. E todos temos também direito ao nosso devido enquadramento. Sou finalmente adept@ do método Multiópticas: devemos poder descontar no déficit a idade do presidente.

Soares – Camões quer reciclar a coisa, o velho afinal vai sair do Restelo, come uns pastéis ainda quentinhos, passa pelas brasas no Planetário, dá umas voltas com os netos no Museu dos Coches e depois rega os gladíolos no jardim de Belém. Afinal tudo está bem quando acaba bem, para cá da Taprobana.

Cavaco – O nosso Clintistuode, descobriu-se agora, é algarvio; o Guadiana é o mistic river, a nação está paraplégica, o cóboi de Boliqueime torna sempre ao saloon do crime e as bailarinas do can-can voltarão a ser escolhidas a dedo. Mas sem tocar. O poder não está na rua, deve ser púdico.

Barbara Guimarães – O meu mundo são os meus livros, os meus filósofos são os do meu marido, os meus lábios podiam ser da Lancôme se ela me pagasse em condições.

Valentim Loureiro – Um dia todos os autarcas serão assim: uma espécie de Inês Pedrosas mas trocando a condição feminina pelas rotundas e pelos semáforos intermitentes.

Alberto João Jardim – Olha Alberto, se te limitarem o mandato faz o mesmo com a pista de aterragem a ver se mais alguém te chateia.

Gatos Fedorentos – O génio português concentrou-se no humor de cariz caricatural dada a sua dificuldade de abstracção e porque uma barrigada de riso enche à mesma e não ficamos com o aspecto dos miúdos do Biafra. Mas no fundo revela que o verdadeiro segredo portuguezinho é sermos sempre génios para poucos e todos eles conhecidos dagente, porque gostamos de sentir a brisa provocada pelo aplauso. Ganha quem descobrir mais estereótipos e frases feitas que durem pelo menos 3 meses.

Luís Filipe Vieira – O sonho americano vivido à portuguesa: começar a encher pneus e acabar a pentear macacos. (saiu um trocadilho um bocadinho forte, mas a vida é isto mesmo – expressão de índole hegeliana com laivos burkeanos)

Alexandra Lencastre – Está magrinha coitadinha e anda a fazer papéis de mazinha, não sei como o país aguenta tamanha desilusão. Não percebo para que serve o Banco Alimentar se despreza assim os que lhe são mais próximos e estão carentes. No fundo também aqui a comida não chega a quem mais precisa.

Marques Mendes – O homem a quem nunca darão complexos se um dia tiver de sair pela porta pequena.

Peseiro – Ser mitológico. Aparece em sonhos aos lagartos a fazer churrasquinhos de fénixes renascidas. No final do sonho o espeto vira-se contra o cozinheiro e vão todos a correr para a pizza hut com o rabinho entre as pernas. Sobremesa da noite: encharcada.

Manuela Moura Guedes – Se eu quisesse também podia ser primeira-dama da Câmara; o meu Zé Eduardo noutro dia chegou a ler dois livros do prof Marcelo e eu até percebo o que diz o Perez Metello; o Miguel Sousa Tavares só me dá entrevistas a mim porque já me consegue ler nos lábios, e diz que eles são o espelho do país; e ele é muito viajado.

Vasco Pulido Valente – Inventou um país à imagem do seu fígado, dá-lhe graça considerar-nos desgraçados e o povo sente-se mais inteligente ao lê-lo. Faz da história o que wittgenstein fez da filosofia: barbies e kens a jogar scrabble em casinhas da lego. Na bilheteira está o capitão gancho; vpv convenceu-nos que o peter pan não existe e que nós vivemos como sininhos esvoaçantes sem eira nem beira. © a.

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julho 26, 2005

Apostar num sentido é desperdiçar uma direcção

Só tinha precisado dum instante para acreditar no invisível e esgotava-se desconfiando, de método na mão, de tudo o que via.
Decidiu mudar. Passou a acreditar sem cifras especiais no que o mundo lhe mostrava e pediu mais tempo, mais sinais para crer no invisível.
Um dia parou para fazer um balanço; e reparou que afinal era o balanço que tinha perdido.
Fôlego não é sinal de força.
© a.

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julho 25, 2005

"Eles & elas".

(Ao cuidado da girézima tia Paula B., imensamente mais fantástica que o guru-Botmelifluo-toncarecazinho da Elle)

B.-H. L.: Ele diz isso num outro contexto, felizmente. E sem nunca nos afirmar que em cada um de nós há um andrógino adormecido!

F. G.: Robert Musil também fala, em O Homem sem Qualidades, desse «desejo de um duplo do outro sexo que se nos assemelha absolutamente sendo outro, de uma criatura mágica que seja nós ao mesmo tempo que tem a vantagem de uma existência autónoma»... Segundo ele, as grandes, as implacáveis paixões amorosas estão todas ligadas ao facto de que um ser imagina ver o seu eu mais secreto a espiar atrás da cortina dos olhos do outro...

B.-H. L.: Não devo ter a mesma ideia da «grande paixão amorosa». Se tivesse que a definir, diria, ao invés: o amor nunca é tão grande como quando temos diante de nós um outro diferente de nós, estranho a nós — o contrário desse duplo cúmplice, dessa imagem invertida, desse reflexo...

F. G.: Já alguma vez sentiu uma paixão súbita, Bernard? Há, no começo de uma paixão, qualquer coisa de que se guarda sempre a nostalgia, e que é, sem dúvida, essa ilusão de fusão.

B.-H. L.: Não. Justamente o que impressiona, na paixão súbita, é, pelo contrário, a estranheza do outro. A sua vertiginosa estranheza. E é dela que, depois, se guarda a nostalgia...

F. G.: Ah! De maneira nenhuma. O que é vertiginoso na paixão é a sensação de reenconto, de ambas as pessoas terem sido feitas desde sempre uma para a outra.

B.-H. L.: Muito romântica... É decididamente muito romântica...

F. G.: «Romântica», creio que não. Estou a tentar descrever um sentimento muito comum.

B.-H. L.: Nunca tive o sentimento de ser «feito» para quem quer que fosse. O encontro, porém, com alguém radicalmente diferente, a emoção face a essa diferença, a impressão de que é, como dizer?,inimaginável e de que o prazer que proporcionará será, portanto, inesgotável — eis, para mim, a paixão.

F. G.: Pensa, como o príncipe de Ligne, que o que há de melhor no amor é o começo e que por isso se deve recomeçar muitas vezes ?

B.-H. L.: Se quiser. Mas com a condição de acrescentar — variante que talvez a surpreenda — que também não é mau recomeçar, várias vezes, com a mesma...

F. G.: Um belo programa. Estou de acordo. Mas então, abdica da estranheza que parece ser a motivação de tantos homens — e de que me falava há instantes?

B.-H. L.: Não, não forçosamente! Porque o outro, como lhe dizia, é estranho. É-o essencialmente. E pode passar-se uma vida, portanto, a explorar a sua estranheza.

F. G.: É um sofisma. Está a jogar com as palavras.

B.-H. L.: Não. Julgo que não. Há outro prazer, além disso, bem conhecido dos enamorados e no qual a sua frase do príncipe de Ligne me faz pensar: é o que consiste — pois ele diz que não há «nada melhor que o começo» — em evocar, reevocar sem fim, o encanto desse começo.

F. G.: Sim?

B.-H. L.: Aquele rosto que se conhece melhor. A silhueta mais familiar. O olhar, o sorriso imperceptivelmente — ou mesmo, por que não?, profundamente — diferentes. E a doçura que se sente, de súbito, ao fechar os olhos por um instante, ao voltar ao passado e ao tentar discernir, de novo, esse ser simultaneamente o mesmo e outro que era a mulher amada no instante do encontro — quando nada estava decidido, quando ela era uma estranha para nós e não sabíamos se seria nossa ou não...

F. G.: Esse seu discurso é muito feminino... A evocação dos começos, o gosto de reviver o passado... O tom de melancolia... São as mulheres que amam com melancolia. «Sou feliz mas estou triste», diz Mélisande. Os homens apaixonados e amados, pelo contrário, ganham asas... Querem conquistar o mundo. Quem foi mais apaixonado que Napoleão?

B.-H. L.: Estou a tentar esclarecer um pouco essa questão da «estranheza». A estranheza clássica, sem dúvida. A de uma nova «conquista», como se costuma dizer. Ou seja, de um corpo sonhado, adivinhado, desejado — e que, de repente, se desvela entre os nossos braços. Mas há uma outra estranheza, pelo menos igualmente apaixonante: é a que perdura mesmo numa mulher que se conhece ou julga conhecer.

F. G.: Sim.

B.-H. L.: Ora, é essa estranheza que aqui me interessa. Era dela que lhe falava. E era nela que pensava quando lhe dizia, há pouco, que não acreditava nessa história de fusão, de androginia, etc.

F. G.: Eu percebi.

B.-H. L.: Pode viver-se dez anos, doze anos, com uma mulher. Ter por vezes o sentimento, neste ou naquele domínio, de uma extrema aproximação. Chega sempre o momento em que se descobre que ela é outra, irredutivelmente outra. Será algo para lamentar? Dizer: «Que pena! Que mal-entendido! Que distância!» Claro que não. Pelo contrário! É o encanto do amor... A sua fonte inesgotável... Ele vive, alimenta-se desse género de mal-entendidos...

F. G.: Alimenta-se ou morre... O entendimento consiste justamente em eliminá-los, tanto quanto possível, ser transparente um para o outro.

B.-H. L.; Não! De modo nenhum! Seria o meio mais seguro, pelo contrário, de deitar tudo por terra. Um casal em que se eliminou toda a parte de mal-entendido, é um casal que não tem, literalmente, mais nada a dizer. Aliás, admitiu que nunca se é transparente!

Giroud, Françoise & Lévy, Bernard-Henri. (1993). "Os Homens e as Mulheres". Lisboa: Editorial Inquérito. (pp 83 a 87)

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julho 19, 2005

Hello Girls! Ecce homo, a disfrutarlo

“Away with love-verses, sugar’d in rhyme, the intrigues, amours of idlers
(…)
To you ye reverent sane sisters,
I raise a voice for far superber themes (…)
(…)
For every man to see to it that he really do something(…);
To use the hammer and the saw
To cultivate a turn for carpentering, plastering, painting,
To work as tailor, tailoress, nurse, hostler, porter,
To invent a little, something ingenious, to aid the washing, cooking, cleaning,
And hold it no disgrace to take a hand at them themselves.” (*)

Pero preciosas, chacun no seu devido place. E em vos faltando destes homens prendados, consolem-se sabendo que as obras de carpintaria do menino Jesus também só aparecem nos apócrifos; fora destes foi uma alegria a receber festas e bálsamos perfumados, condescender com pecadoras, baralhar sumos-sacerdotes, e aviar com demónios para o meio de varas de porcos, entre outras avarias mais ou menos parabólicas (**)

(*) in ‘Leaves of Grass’ de Walt Whitman, na edição bilingue da Relógio d’Água apanha-se pelas páginas 350-352

(**) esta parte não se apanha em lugar nenhum de edição nenhuma porque os editores podem andar tesos mas não são toscos, a não ser que fizessem edições bifidilingues. © a.

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julho 15, 2005

‘O manual de socorrismo’ – hors série

A saudade é um bicho. Pode fazer-se dele um animal de companhia ou uma fera imprevisível e de difícil doma. Em qualquer dos casos a trela deve andar sempre curta e firme porque sem saudade os bichos somos nós. E se nos arranhar há que lamber rápido para apanhar ainda o sabor da ferida fresca. © a.

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julho 14, 2005

‘Causa e efeito’ - hors série

«A nova criatura diz que se chama Eva. Está bem, não me parece haver aí nenhum inconveniente. Diz que este nome serve para eu a chamar sempre que for preciso. Respondi-lhe que, nesse caso, era algo supérfluo» (*). Este tipo de aparente ingenuidade e ignorância do Adão twainiano já faz antever a sua maçãdora consequência: a mulher verdadeiramente amada será sempre exaustivamente chamada. Por isso, o homem que gosta, gasta sempre o nome da mulher gostada. É o castigo por esta ter sacudido a árvore antes do cantar do galo. © a.

(*) in ‘Diário de Adão e Eva’ , de Mark Twain, pg 61, ‘diário de Adão - segunda feira’, ed. Coisas de Ler

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julho 12, 2005

‘Experiências com a verdade’ # hors série

Se pudéssemos deitar a verdade numa bancada de laboratório, e tivéssemos um bisturi amestrado, ela encolhia-se que nem um rato, porque pior que uma ratoeira é um cientista sem alma de jogador de poker; a verdade é filha do risco e amante da ilusão. Mas toda a verdade precisa dum colo para se deixar verdadeiramente beijar, e nessa altura agarra-nos pela cintura de tal maneira que nem precisamos de dançar. © a.

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julho 09, 2005

Revisão dos aforismos – # hors série

Oscar Wilde escreveu que «já estava na altura da providência superar a tentação», pois eu creio que já seria mas é tempo de travarem amizade. Cá, os que a pó tornarão mostrar-se-iam antecipadamente gratos. © a.

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julho 08, 2005

Se isto não é política

(também não é Houellebecq)

"Plus l'appétit de puissance s'exaspère chez les chefs spirituels, plus ils s'emploient, non sans raison, à le freiner chez autrui. N'importe qui d'entre nous, livre à lui-même, occuperait l'espace, l'air même et s'en estimerait le propriétaire. Une société qui se voudrait parfaite devrait mettre à la mode la camisole de force ou la rendre obligatoire. Car l'homme ne bouge que pour faire le mal. Les religions, s'évertuant à le guérir de la hantise du pouvoir et à donner une direction non politique à ses aspirations, rejoignent les régimes d'autorité, puisque, tout comme eux, bien qu'avec d'autres méthodes, elles veulent le dompter, mater sa nature, sa mégalomanie native. Ce qui consolida leur crédit, ce par quoi elles triomphèrent jusqu'ici de nos penchants, j'entends l'élément ascétique, c'est précisément ce qui a cessé d'avoir prise sur nous. Un affranchissement périlleux devait en résulter; ingouvernables dans tous les sens, pleinement emancipés, dégagés de nos chaînes et de nos superstitions, nous sommes mûrs pour les remèdes de la terreur. Qui aspire à la liberté complète n'y parvient que pour retourner à son point de départ, à son asservissement initial. D'où la vulnérabilité des sociétés évoluées, masses amorphes, sans idoles ni idéaux, dangereusement démunies de fanatisme, dépourvues de liens organiques, et si désemparées au milieu de leurs caprices ou de leurs convulsions, qu'elles escomptent — et c'est l'unique revê dont elles soient encore capables — la sécurité et les dogmes du joug. [...] Un monde sans tyrans serait aussi ennuyeux qu'un jardin zoologique sans hyènes."

Cioran, E.M. (2003). "À l'école des tyrans". In Histoire et utopie. Paris: Gallimard. (pp 62-63)

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julho 07, 2005

The siphon country

A política serve, como sabemos, essencialmente para um cidadão se distrair - para exercer o poder existe a GNR e a SIC – ora se passa um dia sem uma gaffe boa, sem ‘uma deriva securitária’, sem uma ‘medida arbitrária’, sem um ‘anexo marado’, sem um ‘crescimento sustentado’, sem uma ‘revisão em baixa’, sem um ‘esforço concertado’, sem uma ‘pedagogia cívica’, sem o ‘assassinato duma tísica’ (há que rimar senão não nos ligam nenhuma) um cidadão-contribuinte deve reclamar.

Já não bastava termos sido privados da ribalta dos grandes baluartes do nosso regime, como o nosso Narciso, o nosso Macário, o nosso Lacão, o nosso Monteiro, já não bastava este tédio, repito-me, ainda temos agora de suportar este fardo que é uma tal de governação em convergência. Eu suportava uma tanga, suportava uma secretária de estado da defesa e das artes e espectáculos, eu suportava o bolo-rei de boliqueime, eu suportava as permanentes da Mª de Belém, eu suportava o Guterres a dizer que tudo se baseava em medidas transversais, eu suportava o Oliveira Martins ministro da finanças (lembram-se? foi em Portugal) mas agora com uma convergência não me conformo. O povo também tem direito ao seu penalty em ‘paradinha’: o país para um lado e o mundo para outro, o estado para um lado mas as minhas coisinhas para outro, o congelamento das reformas para um lado mas as cortinas novas da sala para outro, o país em seca mas o champagne fresquinho. Reparem, convergir é coisa para funis, (funilos até fazia um plural bem mais giro) para ralos, e uma coisa é procurarmos um ponto de viragem, outra coisa é arrastarmo-nos num sifão; antevejo uma serena e alegre vergência para a central de reciclagem, e ser dos lagartos ainda vá lá, mas agora sermos todos um grande ‘ponto verde’ é que já me parece um exagero. Pelo menos que nunca bata a b’Ota com a perdig’Ota é ainda a minha esperança, porque pior que uma convergência é uma coerência. Volta Braga de Macedo e traz o oásis que estamos outra vez precisados. © a.

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