Ao 1060º post faço descer, do local atribuído à descrição, o que foi o primeiro nome do AzulCobalto:
era uma vez...
Deixo uma citação que trago desde a infância em África, rabiscada a marcador negro no kitsch de um pequeno e ratado rectângulo de cartolina cor-de-rosa que já não permite que se veja o nome do seu autor, e com que, ao longo de muitos anos, assinei as fitas dos meus alunos finalistas como se pudesse, dessa forma, passar-lhes um testemunho pessoal e profissional:
"A felicidade encontrá-la-ás quando procurares e encontrares outra coisa qualquer."
Gostei de ter andado por aqui durante dois anos. A todos, muito obrigada.
Bom dia.

Socorro-me, porque nenhumas palavra minhas o poderiam fazer tão acuradamente, da descrição que o filósofo Jean Guitton faz da rosa de Heidegger para sugerir um primeiro olhar sobre esta cadeira azulcobalto que fotografei contra um chão dourado de sol numa passagem por Roma em tempo anterior à existência deste weblog:
"ela estava ali, simples, pura, serena, silenciosa, segura de si, [...], como uma coisa entre as coisas, exprimindo a presença do espírito invisível sob a matéria demasiado visível" (*),
muito mais espectadora do que actriz na indiferença da sua entrega displicente e distraída aos flashs com que a expõem, muito mais passiva do que activa como se, de uma forma semelhante à guerrilha com que se impõe involuntariamente, fizesse sua a ideia de Santiago Gamboa segundo a qual "perder é uma questão de método" (**).
Iniciado o AzulCobalto com dois posts sobre a morte, o primeiro, apagado, a 21 e o segundo, ainda existente, a 23 de Maio de 2003 é sobre a vida que me apetece falar nesta carta que comecei com o intuito de comemorar a vida que ganhei pela capacidade crescente de me afastar do que me traiu, fosse a doença ou a deslealdade.
Repare, de novo, na cadeira e reveja esta ideia do cineasta Robert Bresson relativa à montagem das imagens e aos seus efeitos: "é preciso que uma imagem se transforme ao contacto com outras como uma cor com outras cores" e diga-me se discorda que "um azul não é o mesmo azul ao lado de um verde, de um amarelo ou de um vermelho" (***).
Dois anos não são muito tempo mas não deixam de traduzir, à medida dos instantes, a eternidade de um percurso quase diário em que fui gastando as palavras que encontrei, que me procuraram e/ou que desejei capazes de traduzir o que foram os lugares e os momentos tornados agora arquivos quiméricos em cuja peregrinação hoje nem sempre me reconheci mas que traduzem, em grande medida, o caminho percorrido na direcção da compreensão que, fazendo minhas palavras de Ernesto Sabato que ontem me encontraram, "é sempre o outro que nos salva" (****).
Constato que não são precisas canções de amor para se saber o que Carson McCullers ensinou num livro editado em Portugal no ano em que nasci e que li quando era ainda excessivamente jovem: que o coração é um caçador solitário, e por conseguinte vulnerável, mas que pode defender-se, se para tanto tiver método, aprendendo a perder para ganhar, num processo redentor idêntico ao do fogo quando faz do negro óxido de cobalto o azul luminoso dos azulejos portugueses por que, um dia, o acaso de um encontro me fez apaixonar para o resto da vida.
E termino mergulhada no prazer irreverente da mais completa e estapafúrdia metafísica que foi, desde o primeiro dia, a imagem do AzulCobalto em que se misturam, como na vida, coisas tão absolutamente díspares, duvidosas e acientíficas quanto essenciais, como a cadeira do bar de um hotel, o amor e o destino.
Até sempre.
Roma-Lisboa, Maio 2005.
(*) "Deus e a Ciência", Ed. Notícias, 1993.
(**) "Perder é uma questão de método", ASA, 1999.
(***) "Notes sur le cinématographe", Gallimard, 1983.
(****) "Resistir", Dom Quixote, 2005.