É uma franco-alemã, culta, inteligente, cosmopolita, elegante e bonita. O amor trouxe-a recentemente para este país de que não conhecia senão a informação institucional que a sua profissão, ligada à comunicação social alemã, lhe proporcionara. Fala fluentemente quatro línguas europeias mas não português embora compreenda o suficiente para entender um telejornal.
Há pouco vi-a olhar quase maravilhada para um televisor em que passava o jornal da noite de uma das nossas cadeias. Comentou, apontando quem o apresentava: "Como estava enganada! Tinha a ideia que os portugueses eram um povo muito conservador e afinal vejo que são bem mais corajosos que os franceses ou os alemães: até têm um transsexual como pivot de notícias no primetime!"
Corri para tentar entender do que falava porque temi ter entendido mal o que dissera ou haver alguma avaria grave na imagem do televisor da cozinha cuja programação é cuidadosamente seleccionada pela minha empregada. Ainda em estado de choque, e quase sufocada pelo riso, lá consegui responder-lhe: "Não é um trans!!! É uma mulher, uma jornalista já antiga e chama-se M. M. Guedes!"
Ela olhou de novo e, indicando com as mãos os aspectos que a haviam impressionado, disse: "Que horror! Aquela boca, aquelas bochechas de plástico, aquele cabelo empalhado, fora de moda e de uma cor inacreditável! Nenhuma mulher faz aquela figura! Tens a certeza?" À sua maneira, o meu marido socorreu-me: "É, ou pelo menos era, uma mulher mas agora já não sei..." © a.