julho 03, 2003

... uma cor.


Lisboa - 2002

Azul cobalto é um tom de azul, raro na natureza, que nasce de um negro, tóxico como um ressentimento, por acção de um fogo purificador.

No continuum que as nuances de aguada permitem, vêmo-lo oscilar entre a timidez quase infantil de um bordo de nuvem ou a dureza sombria da fusão entre céu e mar em noites de tempestade. É, talvez pela sua origem, o mais quente dos azuis e foi-se instalando entre nós com a segurança discreta e permanente das coisas simples.

Descobri a pintura de azulejos em azul cobalto, com a técnica do século XVIII, há cerca de dez anos com a ajuda da escultora Maria Morais. Recordo-me do primeiro deslumbramento. Pintara, de forma expressionista e leviana, um pássaro exuberante pendurado num ramo vazio de folhas.

Vagos, muito vagos mesmo, tons de cinzento húmido manchavam o pó branco do vidrado que recobria um pequeno quadrado de cerâmica. Não era capaz de prever o que as minhas mãos teriam produzido e nada do que via se assemelhava ao que, em sonhos, imaginara para a minha primeira obra.

Não houve experiências intermédias, não era possível o ensaio-e-erro, tratava-se de um implacável caso de tudo-ou-nada como o é, quase sempre, a própria vida. Cerca de vinte e quatro horas e de mais de 1000º depois, pude ter nas mãos o meu primeiro azul cobalto.

Seguiu-se uma paixão, avassaladora como o são sempre as paixões, a termo incerto ditado pelas circunstâncias que, sempre o soubera, poderiam mudar no dia seguinte. Hoje, que por razões técnicas não posso pintar em azul cobalto, resta-me o privilégio da proximidade de S. Vicente de Fora em cujas salas e claustros me refugio em busca da luz do azul nascido do negro.

Por tudo isto o azul cobalto pode significar, entre outras coisas, uma oportunidade. Ou uma redenção.

Publicado por m. em julho 3, 2003 12:23 AM
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